Semana passada, comprei um cacho de uvas na feira. Eram rosadas, quase vermelhas. Pareciam parte de um quadro pontilhista. Cheias de manchinhas, ovaladas. Admirei-as. Em seguida, lavei-as, coloquei-as na geladeira e...esqueci. Hoje, depois de ter esvaziado os armários, lembrei delas, solitárias na prateleira fria. Arranquei-as do cacho e as despojei em um potinho, acompanhando com generosas colheres de leite condensado. Eram doces por dentro, mas geladas demais. As cascas, mesmo finas, azedas. Comia-as banhadas no leite. Não estavam boas. Mas eram tão bonitas...Quando havia apenas duas no pote, descobri que partido-as, o fruto adocicado se mesclaria melhor ao leite condensado. E então lembrei: as melhores coisas da minha vida chegam, invariavelmente, atrasadas. Aproximadamente, há duas uvas do fim.