domingo, 28 de julho de 2013

prefixos

Se meus olhos não viram
E minha língua não soube nomear
as [multi]cores
que emanam de ti

Há entre nós
Um abismo
[inter]galáctico
intransponível

Pois meus olhos
e minha língua
são o istmo  
[pluri]prisma
          
Entre mim
e a [vida]:
prefixo transparente,
onipresente. 

residências

Eu moro nas tardes em que tomamos sorvete nesta mesma calçada que hoje piso sem riso. Habito o barco que não roubamos para escapar do caos e nos amar ao mar, no cais. Minha casa é a estrela-cadente que não esperou meu pedido, nesta noite crepuscular, de-cadente. É assim comigo: resido nos resíduos. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Há duas uvas do fim

Semana passada, comprei um cacho de uvas na feira. Eram rosadas, quase vermelhas. Pareciam parte de um quadro pontilhista. Cheias de manchinhas, ovaladas. Admirei-as. Em seguida, lavei-as, coloquei-as na geladeira e...esqueci. Hoje, depois de ter esvaziado os armários, lembrei delas, solitárias na prateleira fria. Arranquei-as do cacho e as despojei em um potinho, acompanhando com generosas colheres de leite condensado. Eram doces por dentro, mas geladas demais. As cascas, mesmo finas, azedas. Comia-as banhadas no leite. Não estavam boas. Mas eram tão bonitas...Quando havia apenas duas no pote, descobri que partido-as, o fruto adocicado se mesclaria melhor ao leite condensado. E então lembrei: as melhores coisas da minha vida chegam, invariavelmente, atrasadas. Aproximadamente, há duas uvas do fim.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

percurso da noite vazia

fuma um cigarro
fica o pigarro
canta a cigarra

a lua adormece
o dia amanhece
ele esquece

Enquanto Heráclito piscou o olho

a crase é grave
a crise é aguda
gramática
ou política:
nada muda

a vida é breve
e a maré tá braba
eu to na margem
e não sei quase nada.

Relatório dos últimos acontecimentos e ligações

Deus está morto no mundo líquido. O mundo está torto. E, apesar de líquido, vai faltar água. Afinal, é o planeta terra. Mas vai faltar planta também, aí deu problema. Não é só pelos vinte centavos, não. É por tudo, oras. Então já se sabe: não deve ser por nada. Alô, alô, marciano?! Sabe quem esteve no poder? Feliciano. Droga! caiu à ligação. Vou tentar o José. E agora José? Já descobriu como é que é? Tum-tum-tum. Cristo redentor não é mais ponto turístico.  É logomarca, impresso na camisa, na garrafa, na mochila, vai acabar virando capa de revista. Iconoclasta da democracia, o primeiro governador negro da maior potência mundial viola os direitos humanos, paradoxal... Deu tudo errado: viver é cancerígeno, tá atestado. Alguém sabe dizer onde é que cancelo o contrato? Alô, alô, marciano? E a passagem só de ida pro teu plano como é que é? Ainda tá de pé?  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

não há menina

Ah, teu silêncio cítrico
sem laço

Essa afonia cínica
do teu passo

O negro e partido
caco

Meu deserto,
espinhas do teu cacto

Galáxia em pó
no corpo explodido

A cacofonia do
do teu substantivo

A lágrima
corre em despedida

Não há menina,
só? part/ida...


domingo, 14 de julho de 2013

23 de junho

    Festinha qualquer. Para esquecer a prova de um vestibular mal-sucedido. Nenhuma previsão no horóscopo, nenhum aviso cartomante. A lua fotografada pelas minhas retinas enebriadas. Ainda lembro. Eu, tão adolescente. Encontro ao acaso. Era certo que nosso time e apetite musical eram comuns. De resto, nada era certo. Nada é, agora sei. Dançávamos. Você pisoteava meus dedos, que aprenderam a ficar em alerta toda vez que você se aproximava e tinha alguma rádio sintonizada. Não aprendemos nenhum passo, né? Só o descompasso do amor mesmo. Nesse, meu coração é bailarino digno de espetáculo russo. Hoje você ligou. A voz represada na garganta era por causa das lágrimas. Mas seria irracional confessar que eram de saudades. E suas. Por isso, inventei qualquer bobagem. Afinal, tinha me despedido de você a quinze minutos, no máximo. Atravessei a rua e você seguiu em frente. Foi nessa hora em que avistei o medo do outro lado da calçada. Tentei seguir indiferente, carregando inútil a fatia de bolo e os brigadeiros. Mas o medo fez companhia até a casa. E entrou mesmo sem convites. Enquanto escovava os dentes, instalou-se no espelho. Encarava-me impiedoso. Era escarlate. Medo de que nossos caminhos não se cruzem outra vez. De esquecer como é dançar torto. De não ser mais a rockeira que entrava em êxtase ao som do Legião. Hoje vesti saia longa, por admiração à estética hippie. Amanhã termino o primeiro período na faculdade do tal do vestibular. Ganhei de presente uma bolsa. Cheia de papéis. Horários, grade curricular, compromissos, responsabilidades, documentos legais. Estou furiosa com os relógios, quero quebrar todos eles. Porque eu sei tudo sobre fórmulas físicas que envolvem o tempo, mas eu não sei como voltar na noite de 23 de junho. Aquela em que eu fui assaltada pela primeira vez. A única em que não pediram dinheiro, mas amor. E permitiram que eu também fosse assaltante.

ps: Vou te aconchegar no bolso e no coração, meu pequeno. Sempre. 

domingo, 30 de junho de 2013

percurso do sexo

pele
    pelo
       carne
           osso
              apelo s e x o
          dorso
       fundo  
     poço

 nexo?

...

sem título


cala
e cola
em meu colo

pousa
e parte
em meu porto

cai
no caos
do meu cais

fratura
meu corpo,
em mil fractais:

dorso
     carne
          osso         

cicatrizes, digitais.

        osso
 carne    
       dorso


nunca mais. 

Dilema

mulher

Receia o seio
Anseia a ceia

Mulher

Anseia o seio
Receia a ceia

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Domingos

Copo quebrado
Corpo sem porto
Garrafa vazia
Caco no chão

Gargalo borrado
Cor do teu batom
Domingo passado
Sexo no Leblon

Ponteiros rodados...

Manchado o cenário
Ai, teu perfume ordinário
         flor, caos, destruição
Libertou meu canário
E deu voz de prisão

Nesse domingo
Sou teu inimigo
O café sai amargo
Acendo um cigarro

Ninguém do meu lado
Nenhum centavo
Peito calado
Cara no muro

E o coração vagabundo
Não para um segundo
Te odeia, te mata
E te ama no escuro.

Cenários

Part/ida

O sol
Sai
Do céu

Gotas de caos
Caem
No cais

Um café cinza
A nuvem negra,
Tristeza.

Chegada

As nuvens cinzas
Saem
Do céu

A alma 
Se acalma 
No pote de mel

Café carmesim
Sol que irradia,
Alegria.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

domingo, 23 de junho de 2013

partes

 Acendi o abajour. Delicados fragmentos de luz formavam sombras bailarinas em meu quarto. Recuperava, com as notas do piano de Alina, cada pedaço inexato daquela noite que nunca mais viveria. Hoje, quanto vieste e fizeste de meu colo o porto para o pouso dançarino de teus dedos, transportei-me. Descobri que o tempo, como aquele revelado pelo Borges que acomodei sobre as pernas, era um oceano profuso. Eu, mergulhada em seu ponto central, tentava imergir ao fundo. E a impiedosa realidade arrastava-me ao centro, porque era o presente. E o presente é o único tempo que pertence ao homem, lembra? Então, como não amar-te se me ofereces também os outros tempos? Aqueles que à ninguém pertence, e que, mesmo assim, trazes-me, com a tua ficção mais linda. Ah, malditos os relógios, os filósofos e os poetas! Atearam fogo ao meu sereno peito. Enquanto cerravas os olhos, eu sabia: surgia em seu silêncio profundo uma cor sem correspondência no universo. Eu entreabria, com uma força pequenina, as janelas das retinas. E fitava no quarto sépia, pintores a inventar novas misturas de tintas. Ambos atravessávamos a mesma pradaria do tempo. Cada um em seu instante. E os dois fundidos num exato momento, perdidos e outros. Àquela altura, a mais dura rocha certamente já teria se transformado em pequeninos grãos difusos, a confundir-se com a areia dos litorais. Como quem investiga, percorria seu rosto buscando reconstituir os fatos. Mas não havia fatos. Só havia duas maçãs rubras e lisas analisadas pelos meus lábios quebradiços. Quis confessar-te. E não soube. Ainda não sei: eu te amo durante toda metade de segundo. A outra, minha alma reserva à melancolia – concerto de sinfonia incerta. Nunca te amarei por completo, portanto. Só te amo a cada fractal de instante. Por fim, te amo durante cada meio segundo de todos os segundos dos sucessivos tempos.

terça-feira, 28 de maio de 2013



Como quem alinha vestígios para reconhecer uma estrada que percorrerá em retorno, marcou-me a espádua com o carimbo dos lábios. Aguardo teu retorno. Mas saiba: as bússolas naufragaram, meu bem.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

pausas

         O tempo correu. Barco naufragado, garrafas quebradas, queijo mofado na geladeira. Era de se esperar. O velho Heráclito, que renova-se todos os dias dentro de nós, nunca falha. Antes, a tristeza e a alegria eram tão...polares! Agora, pó pelos ares. Fragmentos triturados de uma mesma dimensão -- a vida. Hoje, oscilam com tanta maestria. E nenhum maniqueísmo irrompe mais. Se a alegria entra em cena, o cenário é a tristeza. Se a tristeza é protagonista, seu diálogo é com a alegria. Eis aqui a mais poética alteridade. Sobre o caos dos últimos dias? Tem revirado cartas, certezas, sonhos, fotografias, a alma. Las noches? Já não compactuam com o sono, tornaram-se amantes do delírio, de outras línguas [todas tuas. Acordo: sete textos empilhados sobre a mesa, olheiras, um prazo opressor para a leitura. Xícara de café, banho frio: indícios de realidade. Nenhum desejo de percorrer universos que não passem por teus olhos. Segredo?  T e u  a n [s e i o]. Crítica, gramática, linguística, teoria, cultura, você. Sua dança, voz, perfume, lábios, doce, castanho. Lá fora as buzinas, a tampa das panelas, o tamborilar das moedas. Eu entrando na sua casa. O barulho da chave, da maçaneta, a porta se fechando. O mundo atrás de nós. Nós, o silêncio ininterrupto. A decadência de tudo. A tua cadência. Uma pausa no tempo. Um pouso em ti. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Amêndoas

        Eu era aficionada por amêndoas. Um dia, interessou-me uma mulher sentada debaixo de uma amendoeira. Gotículas de chuva mesclavam-se aos raios de um sol que despedia-se entre nuvens. A terra molhada começou a exalar um cheiro de tempo que se confundia com o perfume dela. Eu, como quem rouba pétalas de uma rosa até chegar em seu íntimo, desvendava mistérios daquela inusitada beleza. Suas sobrancelhas eram espessas, de fios bem trançados e negros que carregavam uma assombrosa seriedade. Sua boca, emoldurada por uma linha de irresistíveis traços, era composta por lábios carnudos que insistiam em fugir do contorno. As mãos, de tão miúdas e magricelas, lembravam galhos despidos de uma árvore outonal. Uma tela pontilhista aos poucos se formava em seus ombros de pequeninas sardas onde pousavam pétalas qualquer de uma flor marrom que fora violentada pelo vento. Havia, no entanto, um traço fatal. O exame minucioso de seus olhos despertara em mim um desejo impronunciável. Eles eram a mais deslumbrante amêndoa que já tinha visto. Eram vivos e marcados por vestígios de uma alma que desconhecia e já amava. Nunca mais comi amêndoas. Ninguém soube o porquê. Ninguém me viu morrer de fome daquela coisa que instigava e apetecia.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A linha

        Havia uma linha enterrada – mas não morta, apesar de torta – entre as palavras de Jorge Luis Borges. Imprensada entre as fantásticas letras do conto, parecia atropelada por uma carruagem de pesados e desconcertados sonhos mágicos. Grudava-se tão espantosamente a uma das páginas já ruídas pelo feroz e amargo tempo que parecia um desimportante e desgastado desenho nela fixado. Para nós, era um impulso a estranhas e íntimas descobertas. Analisávamos: irreparavelmente tensa e indomável, não se espreguiçava, não relaxava nem dormia nunca. Em suas subversivas extremidades, brotavam ondulações desconexas que revelavam generosa dose do caos que compunha o cerne de sua estrutura. Era única e ao mesmo tempo formada por muitas outras linhas que se entrelaçavam fielmente para compor sua complexa e enigmática trama. Estava ali seu indissociável paradoxo, sua composição plural que nos projetava mesclas de assombro e fascínio. Seu formato expressava, por um interessante acaso, uma originalidade inviolável, que invejávamos em silêncio sem confessar um ao outro. A beleza irremediável estava ainda mais acesa em nossos olhos entorpecidos que cuidadosamente a percorriam. Atormentavam-se imersos no delírio de quem descortina a sutileza oculta de uma das partes do infindo mosaico de pequenas coisas da vida. Decretamos pactualmente, sem que soubéssemos, a eternidade da linha, porque nós jamais a esqueceríamos. Ele a achava preta. Eu, uma espécie de azul celestial. Mas isso nunca importará, na verdade. Juntamos a ela algumas gotas de saliva, células mortas, cílios caídos e a invisível marca de nossas digitais. Guardamos fragmentos de nós mesmos, protegidos pelo desinteresse dos outros. Ninguém mais saberia daquela misteriosa linha. E muito menos da outra: a que nos unia. Sob escombros e páginas não lidas ficariam todos os rastros aleatórios em sinestesia. Fechamos o livro.

domingo, 28 de abril de 2013

A rosa e a formiga

       Uma formiga caminhava sobre a pétala de rosa. Pobre criatura desesperada. Sentia-se imergir em um sedoso e vermelho mar tardio. Suas ínfimas patas oscilavam por entre as irregularidades da infinda pétala de extremidades já ressecadas e, por isso, febris e negras. A rosa, apesar de noturna, mergulhava em todas as cores do universo enquanto recebia os carinhos de patas tão desorientadas. Pétala e patas confundiam-se em um transe caótico. De repente, eu era a formiga efêmera e pânica. Você, a rosa inteira e farta. Depois, eu fui a rosa dionísica. Você, formiga miúda e cálida. 

sábado, 30 de março de 2013

Dicionário brasileiro

li.ber.da.de de ex.pressão def. 1. Superstição presente no imaginário popular. 2. Direito comumente sufocado por bomba de gás lacrimogêneo ou spray de pimenta. sin. Utopia, quimera, sonho.




sexta-feira, 29 de março de 2013

(...)

Tenho em mim a certeza de que nunca será suficiente chegar a um ponto. Um ponto sempre incita novos sonhos – pontos – ou acorda aqueles adormecidos. Eu vivo insatisfeita. O que não quer dizer que eu nunca chegue a um ponto. É só que, por exemplo, três pontos já formam reticências. E cada reticências oferece um milhão de possibilidades. Eu desejo, em êxtase, agarrá-las todas. Mas não posso. Ah, são impiedosamente efêmeras as veredas dessa vida!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Naufrágio

É, meu bem, o barco naufragou
Imergiremos em nuances
E ondas do oceano da alma
Depois de tantas tempestades
A previsão é de solidão
Mas não estaremos sem sóis
Há de passar pela fresta
De nossas negras janelas
Algum feixe de luz
Ainda que sejamos resto,
Subversão e submundo
        [qualquer-troço-vagabundo
Lembre-me de evitar
Outra overdose de realidade
Traz nosso ópio: a ilusão
Posso segurar tua mão?
Ando tão triste
Quem vai me ouvir?
Será que existe
Algum lugar longe daqui?
É pra lá que sonho ir
Não, navegar não é preciso
Preciso é naufragar
                   [dentro de si.

amor

o amor tece a dor
e amortece a dor        

sábado, 23 de março de 2013

Trago



E se vier, meu bem
Não precisa trazer nada
                              [além
Do seu coração em chamas
Porque o teu amor
É a única fumaça que trago.

Cracolândia


Aula de português:
Eu trago
Tu tragas
Ele tragava
           [mas morreu
Nós tragamos
Vós tragais
Os traficantes trazem.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ansiolítico


Venho, por meio deste, prestar agradecimento aos senhores proprietários da sanidade mental. Pais, mães e filhos da sagrada família moral. No entanto, a partir de hoje dispenso as doses oferecidas de anestesia e superego social. Perdoem-me, mas o único ansiolítico contra meu desejo ardente de viver será a morte -- última parada, destino final. Qualquer outra droga não surtirá efeito. Vide bu[r]la. Não me amolem, tchau!



quinta-feira, 21 de março de 2013

corpo


Em mil partos
Me re[parto¹
Mil cacos
Mil fractais
Meu corpo
É o nu re[trato
Refém de tais tatos
E tantas digitais.

¹Cada partida é um novo parto. Cada parto exige que eu siga. Então eu vou, repartida. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Homem Que Não Sabe Ser Triste

É bem mais branca a tua paz
Eu sigo tua lua luz nua
Teus sorrisos e os bons sinais

É uma espécie de coisa linda
Esta que foge da tua alma
E dança na palma
                           [da tua mão

Você é feliz, meu amor
Mas não te invejo, não
Porque às vezes também sou

Você não sabe ser triste
E nem gosta da dor
Mas melancolia também existe
                            [e pode ser boa,
                            sim senhor

Então eu grito sem espanto
Que me injetem todas as doses
Seja de riso, seja de pranto

De calma ou de canto
De sóis ou tempestades
Das mentiras ou verdades
                                [de nós, à sós

É que eu não me contento
Em ser só feliz, sem argumento
Eu não aguento 
                           [sou brisa, furacão
                           e vento

Mas me beija então
Que, por via dos lábios,
Quem sabe tu me ensinas alegria
                           [que eu te ensino 
                           a solidão.

sábado, 16 de março de 2013

Estupro

Na noite passada
Bateu em minha janela assustada a vida
E estava totalmente...despida!
Vestia apenas uma nudez linda, quase infinda
Aproximou-se e sussurrou em meu ouvido
Assim como faz o vento quando se torna brisa
E entregou-me sufocada uma carta
Suplicou, ainda, que eu a enviasse para aqueles
Que se negavam a receber sua visita
Nela estava escrito seu único pedido:
Que a violassem, a corrompessem
Sorriu escarlate e confessou-me
Que aquele era o único crime permitido
Desejo de estupro da vida: Maior liberdade
Moralmente reprimida.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Vim-me embora de Passárgada

Lá não tive a mulher,
E sim as mulheres que quis
Nas camas que escolhi
O rei, então, mandou-me embora: “Vai-te daqui!”
Recolhi os cacos de amor e nunca mais fui feliz
Apesar de toda tristeza,
Trouxe na mala, o retrato de Teresa
Apesar da falta de cama,
Trouxe a colcha bordada por Ana
Apesar de todo problema,
Trouxe num pote, doce de Madalena
Apesar de sem alegria,
Trouxe no bolso, um amuleto de Maria
Apesar de querer bis,
Trouxe no peito, o amor de Beatriz
Apesar de apagada a vela,
Trouxe chama quente de Manoela
Vim-me embora de Passárgada
Lá agora sou o inimigo do rei
Vim-me embora de Passárgada
Mas deixei meu coração partido em seis
Vim-me embora de Passárgada
E dessa vez não voltarei
Meu canto agora é desbotado
E a vida já não tem mais sentido
Empurrei pra dentro do ralo
A chave do paraíso...


Nota: Intertextualidade explícita com o poema "Vou-me embora pra Passárgada" de Manuel Bandeira.

sábado, 9 de março de 2013

No oftalmologista



        Examinou-me com cordial atenção aquele médico. Usou todos os aparelhos possíveis, com nítido apreço. Observava minuciosamente minhas pupilas dilatadas. O exame corria bem. De repente, porém, percebi naquele semblante uma transmutação. Nele descortinava-se alguma indignação, umas doses de curiosidade e outras de incerteza. O médico levantou-se, buscou em sua gaveta uma ferramenta e lançou seu olhar através da lente, novamente.  Minutos passados, certificou-se por fim de que não tinha a resposta para o enigma que diante dele se expunha. Resolveu, então, convocar um dos médicos que transitava pela sala. Voltou-se para ele, dizendo em tom instigado que o exame detectava uma luz branca no fundo dos meus olhos. E ele, a desconhecia. O amigo, mais experiente não em casos oftalmológicos, mas naqueles d'alma, respondeu-lhe confiante: é o brilho que guarda as retinas que ainda são meninas. Imergiu-me, assim, uma epifania. Encantei-me com aquelas palavras que soaram como poesia de Drummond. Eu, feliz por ser proprietária de uma íris que muito brilhava, pedi suplicante que o médico indicasse o remédio capaz de preservar tal luz. Ele, rindo-se de minha inocente prepotência, confessou-me que jamais prescreveria tal receita. Não porquê não quisesse, mas porquê não podia. Agradeci-lhe ainda assim, e, inconformada voltei-me para a saída. Antes que atravessasse a porta, presenteou-me com recomendações últimas: "não se esqueça de usar o colírio! não esqueça do amor! use principalmente o amor, antes e depois que o colírio acabar." Guardei suas nobres palavras. Refletindo em meu caminho de retorno à casa, dei-me conta de não tinha propriedade alguma. Vivia tão somente na tentativa de arrendar os amores que alugo há anos, em tantos olhares, bares, lugares...E que o faço só para não perder o brilho desta minha retina. Nem a poesia desta minha vida.   

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Te convido a nunca ir embora



Vem, que aí eu ponho Chico na vitrola
Vamos soltar os passarinhos da gaiola
E depois ir ao Cine Odeon pegar a última sessão
Discutir sobre nossa filosofia errante, em contra-mão 

Vamos guardar as angústias em uma gaveta
Pendurar na porta uma lembrança branca e preta
Espalhar esperança e poesia nas estantes
Vamos nos tornar mais amantes

Vamos roubar um fusca pra ir embora
Firmar um pacto de esquecer a hora
Filmar as bolhas de sabão daquela festa no jardim
Vamos viver assim

Pega aquela flor que eu te dei
E coloca de novo no cabelo
Pra você ficar com cara de menina,
Transpor um arco-íris pra retina, ser feliz...não sei

Vamos abrir a janela
Encontrar as chaves dessa cela
Subir aquela ladeira, falar besteira
Rezar pra um santo, ter fé, acender uma vela

Que nossa arte, querida, há de caber em alguma parte
Escura ou clara dessa estranha vida
E nossos gritos hão de cicatrizar alguma ferida
E cada lágrima e sorriso há de guardar o que preciso.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sentir




Pela manhã, café bem quente. De adoçante, gota nenhuma. De lágrimas de qualquer sentimento, gotas inúmeras. 

Para usufruir as cores e sabores da vida é preciso sentir. Qualquer coisa. 

Almas-passarinho



Almas que amam
Não são almas só
São almas-passarinho
Voam no dia, asas da liberdade
Voltam na noite, amantes pro ninho.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Flores das chaminés

Autoria ideológica de Thayane Guimarães.


Quando é que nós, homens de guerra
Reféns de um mundo sem amor
Faremos brotar das chaminés dos nossos carros
Ao invés de fumaça,
flor?


Tuas retinas infindas




Entre tantos livros meus nessa estante
Aquele que é teu
É o de história mais fascinante
Aquele que li repetidas vezes
Aquele que não pulei página alguma
Aquele que interpretei por meses
Aquele que sem ele sou eu coisa nenhuma
Aquele que me faz sorrir ao decifrar
Aquele que faz lágrima minha derramar
Aquele que tem as palavras nunca escritas de tão lindas
Aquele que dei título assim: Tuas retinas infindas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Transplante



       Ontem à noite nosso amor recebeu um transplante. E foi de vida. Doadores: eu e você. A operação era de risco. Mas fizemos o principal: arriscamos. Ao invés de anestesia, sinestesia. Iniciamos com a transfusão de sangue. E, lentamente, ele voltava a pulsar. Seguimos com doses imprecisas de intensidade. Encontramos a medicação que precisava: pílulas que estimulam o desenvolvimento de asas. Depois, para fins recuperativos, deixamos que descansasse sob nossos peitos aflitos. Enquanto afundávamos em nossa própria criação. O amor, então, abria seus olhos atentos diante de nós. E, esparramava-se brincando entre as pernas e os lençóis. Era quente e almado esse novo amor. Cresceu desajeitado, tremendo minhas certezas e despenteando meu cabelo – parecia até uma espécie de furacão. Não sei se é, mas era algo em extinção. Inquietava-se. Devorava, roia e desejava a pele minha. Queria a última gota da minha saliva. E até a cor dos meus lábios desbotava de tanto beijo que o amor me dava.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ninguém no mundo


Ninguém no mundo invadiu meus olhos
E buscou no fundo as dores e delícias
Ninguém no mundo aceitou-me sem malícias

Ninguém no mundo fez aquele convite pra dança
E depois resgatou o sorriso empoirado no baú de uma criança
Ninguém antes no mundo trouxe esse tom da esperança

Ninguém no mundo ensinou-me essa dança
A dança da nossa vida e o com(passo) do balé
Ninguém no mundo mostrou antes como é – que o amor se faz

Ninguém no mundo foi tão amante e tão irmão
E ninguém antes soube alar meu coração
E também ninguém errou tão bem a dose da paixão

Ninguém no mundo aceitou meu amor vagabundo
Que é também tão simples, tão barato
E que ainda anda perdido no labirinto do abstrato

Ninguém no mundo derramou a minha alma
Colecionou minhas cartas, estrelas e flores
Ninguém guardou tão bem as palavras-com-amore

Ninguém no mundo entendeu meu punk rock
E ainda minha estranha e im(pulsiva) poesia
Ninguém antes decorou a minha desconexa coreografia

Ninguém no mundo será o que você é
Ninguém no mundo tem a cor dos seus olhos castanhos
Ninguém no mundo vai te guardar como eu vou

Ninguém no mundo fez de mim amor como agora sou
Você é pra mim como ninguém no mundo
Não há sinônimo nem antônimo...há você e suas coisas – que amo.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Zé Sonhador


Um dia desses o Zé morreu de vez 
Mas ninguém soube quem ele foi 
Será que o José de Drummond, em versão enxuta? 
Seria o Ramalho, o do Caixão ou o Mané? 
Caberia nele a personificação de quantos Zés? 
Zé tinha pele empretecida 
Cor de café-que-não-tomava 
E por não tomar café, Zé não acordava 
Zé morria sonhando, dia após dia 
Sentado em qualquer esquina 
Que também foi seu berço concreto 
Não tinha espaço para o abstrato 
Apoiava os ossos de papel que tinha 
No asfalto fumegante, de pedra moída 
Passou a morte olhando o mar 
Que só mesmo ele conseguiu criar 
Construiu infindo oceano na poça d´água suja 
Pelo qual um dia se poria a navegar 
Assim que o sol se fosse, parando de queimar 
Mas Zé morreu antes, antes de seu veleiro chegar 
Um dia desses, o Zé morreu de vez 
No obituário registrou-se nome 
Que nunca teve em morte: Zé Sonhador 
Enfim, tinha nome e sobrenome 
Virou gente, matou a fome.

Nota: Inspirado nas reflexões sobre morte, vida, miséria e dignidade presentes em "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A menina que queria conhecer o céu


          

          Era diferente. Devia ter a pele doce. Se não a tinha, pelo menos seu nobre coração era. Se tivesse que pintá-lo, usaria tinta vermelha, sua cor favorita. E, não dispensaria colheres de açúcar pra cristalizar o desenho, assim, abrigaria um toque de realidade. Nos seus olhos, tons que me transportavam até as memórias de infância. Certa vez, conversávamos casualmente, sentadas no banco. Falávamos sobre lugares para conhecer, listamos: Espanha, Paris, Londres, Canadá e uma infinidade de mesmices. Ela, depois de muito tempo de palavras enxutas, revelou-nos o destino que desejava: o céu. Nem carro, ou mesmo navio e muito menos avião. Suas asas seriam um grande balão. Foi uma das coisas mais lindas que já ouvi. Admirei-a em silêncio e chorei. Ela sabia, embora não acreditasse, tirar seus pés do chão. Queria ficar pertinho das paredes azuis que aprendemos a contemplar de longe. Iria descobrir e trazer em sua bagagem a resposta para o questionamento que desde pequena fiz à minha mãe: se as nuvens eram mesmo de algodão. Era tão simples seu desejo e era também peculiarmente seu. Fazia dela um ser bem maior. Tenho certeza que conhecerá o céu, porque é provavelmente um anjo em metamorfose. Então, vou fazer dois pedidos: pra você trazer um pedacinho de nuvem pra eu guardar em um pote e pintar o arco-íris de sete cores mais fortes.

Texto dedicado à minha querida amiga, Samara Simão.

(Não) fazemos poesia sob encomenda



Certa vez, que ironia
Encomendaram-me poesia
Mas, coitado, mal sabia
Que ela é que me encomendaria
E, eu era pulsante refém de sua fantasia
Poesia, caro amigo, é como flor
Sutileza que homem nenhum cria
Nasce sozinha do amor
E só existe sob sinestesia.

Mariayne Cortes

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pássaros, estrelas e nós



Às vezes brinco com você, recordando a infância. Entre as cenas que vivíamos. Certas noites, divido minhas novas descobertas e desnudo minhas incertezas. Jogamos conversa fora, debaixo das estrelas ou das nuvens sisudas. Nunca fomos demasiadamente plurais. Embora abrigássemos com caos e alegria nossos vícios e virtudes. Aprendi com você sobre ser ímpar. Sempre te admirei, por esse e tantos outros motivos. Enquanto todos dormiam para sonhar, ficávamos acordadas para fazer isso. Nosso lar: a varanda fria na qual ecoavam ruídos só nossos. Era a catarse habitual. Depois de um tempo, confirmei a certeza que guardava: nem todos poderiam me ouvir. Sou silêncio ininterrupto para muitos...E, você, sempre acessou minhas melodias e melancolias. 

Sempre soube que nenhum abraço substituiria o seu. Ainda assim, consciente do insucesso, te procurei em outras esquinas que não aquelas nas quais íamos. Mas isso nunca importou. Nós sabemos que não existem reservas, e não estão esperando no banco. Somos titulares. Impagáveis, assim como nossos tempos. Somos aquelas cujo crime não compensa. Somos catarse em braile. Nossa interpretação concede-se apenas para os que conseguem enxergar mesmo quando dispensam os olhos como instrumento. 

Sobre o tempo..."és um dos deuses mais lindos." Seria mesmo capaz de naufragar nossos sorrisos? Endurecer as tintas das latas que abrimos? Eu não lhe concederia tanto poder. Talvez ele saiba pausar cenas. Mas o controle ainda está -- e sempre estará em nossas mãos. Nada vai me levar de nós. Eu conseguiria, se quisesse, listar inúmeros motivos para isso. Porém, não seria necessário. Porquê eu sei o quanto há de você em mim. A grande parte depositada aqui, nesses meus sonhos indomáveis. 

Querida, não há espera na janela. E não vou aguardar até que você se torne estrela para eu te ver outra vez. Eu te busco com frequência. E quando te pego, trago-me também. E, quando encontro a nós...estamos invariavelmente cúmplices, irmãs, felizes e perdidas. Entre tantos caminhos, houve partidas e apertos. Nunca me encontrei. Fico sempre com a sobra: minha tentativa. Mas sei também que nunca te perdi. E, se for preciso. Eu pinto estrelas e colo no céu. Só pra ver nossos sorrisos brilharem outra vez.

Parafraseando Mário Quintana:

"Eles passarão...
você passarinho."

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Último dia de inverno


Amanhecia do lado de fora. Era um novo dia. Para eles, entretanto, havia nada mais que uma velha certeza: a rotina era o penhasco para aquele amor com tendências suicidas. O silêncio invadia gradativamente o quarto, como costumava fazer toda manhã. Já entrava sem bater à porta, era íntimo. Parecia compor a mobília, as roupas, as bocas. Junto com ele, a luz da manhã percorria sem pressa seus corpos fatigados. Raios de um sol eminente e frio atravessavam as frechas da antiga janela de madeira. Era o último dia de inverno. 

Ao despertar, ela estranhou-se. Sentia-se protagonista de uma cena importante. Uma esperança tomou-a irremediavelmente, mas logo desfez-se como algodão-doce no céu da boca. Ele a fitava incessantemente. Interessava-se pela primeira vez em decifrar os mistérios agregados pelas suas curvas. Esboçaram um sorriso, que projetou-se em sépia. Ela questionava-se, com uma pitada de dor e alegria, se ele finalmente aprendera a amar-lhe. Depois de vinte anos de casamento – e compromissos e promessas e dívidas e dúvidas e empregos e pregos, será que havia um espaço na agenda dedicado a este nobre sentimento?

Ele a sentia. E, pela primeira vez, sentiu-se também. Reparou suas mãos: estavam mais enrugadas e gordas que antes, eram efeitos do tempo – que transitava impiedosamente. Apenas uma coisa permanecia como antes: há vinte anos a mesma aliança estava enterrada em seu dedo. E, há vinte anos não sabia o que era o amor. Ainda atormentado pela ideia de nunca ter provado o êxtase do melhor dos sentimentos, resolveu redimir-se pronunciando em tom desesperado as palavras que ela tanto sonhara ouvir: "Eu te amo." 

Em um colapso sinestésico, ela congelou-se. O silêncio era mais penetrante que antes. Dentro, sua alma derretia-se. Estava transbordando pelas suas retinas inefáveis. Molhava seu rosto imper(feito) de expressões febris. Então, inquietou-se: suas lágrimas não eram de alegria como pensou que seriam. Aquelas palavras re-acediam cicatrizes que ele bem soube provocar. Ela, sem voz, não conseguia retribuir-lhe com nenhum gesto afetuoso.  O que estava acontecendo? Desejou gritar de um jeito insano, não vestir a lucidez daquela vez. No entanto, ouviu-se para compreender-se. A verdade despia-se diante dela:  não o amava. O que amava era a dor de não ser amada.

Na manhã seguinte, arrumou as malas. Foi até a cozinha, pegou sua mais bela taça e preencheu-a com uma dose suficiente de coragem. Precisava ser fiel ao que sentia, como fora todos aqueles anos. Sentia-se livre de um jeito novo. A certeza de ambos se concretizava: aquele amor finalmente jogava-se do penhasco. Só que agora não haveria mais rotina. Dessa vez, era primavera. Era o recomeço. Não escreveu-lhe um bilhete. Deixou-lhe uma rosa. E, partiu. Não sabia mais sorrir em sépia. Seria feliz. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Liquidificador de ideias


Filosofia de uma desencontrada

É trágico e belo o efêmero espetáculo da vida. É única e indelével nossa aventura pelo mundo. Surpresa e monotonia. Dores e delícias. Lágrimas e alegrias. Não deixe que John Lennon seja the only one, rapaz – be a dreamer. Acredite em Raul: "não pense que a canção está perdida." Arrisque-se em direção ao desconhecido, tome coragem. Não dispense a genialidade de Clarice: “Perder-se também é caminho.” Há sempre uma epigênese em oceanos de incerteza. Não saia por aí contando verdades absolutas. Não esqueça que certo e errado são apenas pontos de vista. E, não há valor indubitável. Que você tenha força para perseguir seus sonhos. E, muita coragem para buscar os meios para realizá-los. Quando for escolher uma carreira, esqueça de escutar o senso comum. Mesmo  após tantas revoluções, as pessoas continuam confundindo dinheiro e status com felicidade. Pense em algo que genuinamente desperte seu interesse. Depois, certifique se você poderá fazê-lo com paixão. Então, siga em frente. Não há pesquisas nem dados científicos que comprovem, mas não se preocupe: a felicidade transcende a ordem da razão. Lembre-se que certas vezes seu coração baterá triste. Entenda que não existe maniqueísmo. Não somos bons ou maus, alegres ou tristes. Há, em cada indivíduo, o paradoxo da existência. A alma é suficientemente ampla para abrigar as antíteses. Nossa identidade é também resultante dos conflitos, tempestades, descontinuidades. “A única coisa permanente é a mudança” como bem afirmou Heráclito. É fascinante o transitar dos tempos. O decorrer da vida. O tempo pode até amolecer corações de pedra, sabia? Pois é. Ele possibilitará que pontes sejam erguidas. Então, faça isso ao invés de construir muros. Vivemos na Era da Informação. Tudo pode ser acessado, visualizado, invadido, m-o-d-i-f-i-c-a-d-o. Que a vida seja, então, uma sucessão de novidades e encantamentos. Que as aquarelas sejam mais vivas e que as telas fiquem menos brancas. A vida precisa de tons. Ainda que sejam os clássicos preto e branco. Não esqueça de dar play na cena, colocar os discos na vitrola, cantarolar desafinado, dividir uma casquinha de sorvete com alguém especial, lavar a alma com água da chuva, soltar passarinhos da gaiola, chorar de rir, jogar-se na cama, tirar os sapatos, desabotoar o terno, contar as estrelas, colecionar conchinhas da praia, doar sorrisos. Quando você conseguir achar graça nisso tudo, pode ter certeza que aprendeu a viver. E, então, delicie-se. Em tom de despedida, suplico finalmente: “Vida louca, vida. Vida breve, já que eu não posso te levar quero que você me leve.” 

Obs: Este texto foi intencionalmente redigido sem parágrafos. Em respeito ao livre transitar de minhas ideias e palavras.  

Por hora, deixarei as regras pro mundo real. Liberte-se também.




domingo, 20 de janeiro de 2013

Apresentação

De uma maneira geral, a palavra sinestesia é definida denotativamente como:


"s.f. Psicologia Associação espontânea entre sensações de natureza diferente mas que parecem estar intimamente ligadas; Retórica Associação de palavras ou expressões que combinam sensações distintas numa impressão única; cruzamento de sensações." 


O objetivo da criação deste blog é a expressão livre das reflexões sobre a vida: uma experiência sinestésica. Nada mais que palavras de uma andarilha de labirintos caóticos e deliciosamente harmônicos. Eternamente oscilante entre o apolíneo e dionisíaco. Amante do paradoxo. Inconstante, pulsante, metamorfose ambulante.  Assim como Clarice: "Enquanto eu tiver perguntas e não haver resposta, continuarei a escrever."

Aficcionada pela catarse, refém dos sentimentos, delírios e paixões: eis aqui a fatia favorita do meu eu. Apresento-a sem máscaras. Talvez as palavras sejam minha mais forte, sincera e intensa expressão. Portanto, são também minhas dores, cicatrizes, medos e gritos que alguma tempestade sufocou. A partir de agora, faço então meu empréstimo: lentes inéditas para o observação do mundo, verdadeiro museu de grandes novidades.

Gostaria de usar as palavras de Drummond em seu poema Lembrete

"Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida
mas a poesia (inexplicável) da vida." 

Muito bem-vindo(a), possível leitor(a). Qualquer hora eu volto. Ou, quem sabe, vou. 



Mariayne Cortes.