sábado, 30 de março de 2013

Dicionário brasileiro

li.ber.da.de de ex.pressão def. 1. Superstição presente no imaginário popular. 2. Direito comumente sufocado por bomba de gás lacrimogêneo ou spray de pimenta. sin. Utopia, quimera, sonho.




sexta-feira, 29 de março de 2013

(...)

Tenho em mim a certeza de que nunca será suficiente chegar a um ponto. Um ponto sempre incita novos sonhos – pontos – ou acorda aqueles adormecidos. Eu vivo insatisfeita. O que não quer dizer que eu nunca chegue a um ponto. É só que, por exemplo, três pontos já formam reticências. E cada reticências oferece um milhão de possibilidades. Eu desejo, em êxtase, agarrá-las todas. Mas não posso. Ah, são impiedosamente efêmeras as veredas dessa vida!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Naufrágio

É, meu bem, o barco naufragou
Imergiremos em nuances
E ondas do oceano da alma
Depois de tantas tempestades
A previsão é de solidão
Mas não estaremos sem sóis
Há de passar pela fresta
De nossas negras janelas
Algum feixe de luz
Ainda que sejamos resto,
Subversão e submundo
        [qualquer-troço-vagabundo
Lembre-me de evitar
Outra overdose de realidade
Traz nosso ópio: a ilusão
Posso segurar tua mão?
Ando tão triste
Quem vai me ouvir?
Será que existe
Algum lugar longe daqui?
É pra lá que sonho ir
Não, navegar não é preciso
Preciso é naufragar
                   [dentro de si.

amor

o amor tece a dor
e amortece a dor        

sábado, 23 de março de 2013

Trago



E se vier, meu bem
Não precisa trazer nada
                              [além
Do seu coração em chamas
Porque o teu amor
É a única fumaça que trago.

Cracolândia


Aula de português:
Eu trago
Tu tragas
Ele tragava
           [mas morreu
Nós tragamos
Vós tragais
Os traficantes trazem.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ansiolítico


Venho, por meio deste, prestar agradecimento aos senhores proprietários da sanidade mental. Pais, mães e filhos da sagrada família moral. No entanto, a partir de hoje dispenso as doses oferecidas de anestesia e superego social. Perdoem-me, mas o único ansiolítico contra meu desejo ardente de viver será a morte -- última parada, destino final. Qualquer outra droga não surtirá efeito. Vide bu[r]la. Não me amolem, tchau!



quinta-feira, 21 de março de 2013

corpo


Em mil partos
Me re[parto¹
Mil cacos
Mil fractais
Meu corpo
É o nu re[trato
Refém de tais tatos
E tantas digitais.

¹Cada partida é um novo parto. Cada parto exige que eu siga. Então eu vou, repartida. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Homem Que Não Sabe Ser Triste

É bem mais branca a tua paz
Eu sigo tua lua luz nua
Teus sorrisos e os bons sinais

É uma espécie de coisa linda
Esta que foge da tua alma
E dança na palma
                           [da tua mão

Você é feliz, meu amor
Mas não te invejo, não
Porque às vezes também sou

Você não sabe ser triste
E nem gosta da dor
Mas melancolia também existe
                            [e pode ser boa,
                            sim senhor

Então eu grito sem espanto
Que me injetem todas as doses
Seja de riso, seja de pranto

De calma ou de canto
De sóis ou tempestades
Das mentiras ou verdades
                                [de nós, à sós

É que eu não me contento
Em ser só feliz, sem argumento
Eu não aguento 
                           [sou brisa, furacão
                           e vento

Mas me beija então
Que, por via dos lábios,
Quem sabe tu me ensinas alegria
                           [que eu te ensino 
                           a solidão.

sábado, 16 de março de 2013

Estupro

Na noite passada
Bateu em minha janela assustada a vida
E estava totalmente...despida!
Vestia apenas uma nudez linda, quase infinda
Aproximou-se e sussurrou em meu ouvido
Assim como faz o vento quando se torna brisa
E entregou-me sufocada uma carta
Suplicou, ainda, que eu a enviasse para aqueles
Que se negavam a receber sua visita
Nela estava escrito seu único pedido:
Que a violassem, a corrompessem
Sorriu escarlate e confessou-me
Que aquele era o único crime permitido
Desejo de estupro da vida: Maior liberdade
Moralmente reprimida.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Vim-me embora de Passárgada

Lá não tive a mulher,
E sim as mulheres que quis
Nas camas que escolhi
O rei, então, mandou-me embora: “Vai-te daqui!”
Recolhi os cacos de amor e nunca mais fui feliz
Apesar de toda tristeza,
Trouxe na mala, o retrato de Teresa
Apesar da falta de cama,
Trouxe a colcha bordada por Ana
Apesar de todo problema,
Trouxe num pote, doce de Madalena
Apesar de sem alegria,
Trouxe no bolso, um amuleto de Maria
Apesar de querer bis,
Trouxe no peito, o amor de Beatriz
Apesar de apagada a vela,
Trouxe chama quente de Manoela
Vim-me embora de Passárgada
Lá agora sou o inimigo do rei
Vim-me embora de Passárgada
Mas deixei meu coração partido em seis
Vim-me embora de Passárgada
E dessa vez não voltarei
Meu canto agora é desbotado
E a vida já não tem mais sentido
Empurrei pra dentro do ralo
A chave do paraíso...


Nota: Intertextualidade explícita com o poema "Vou-me embora pra Passárgada" de Manuel Bandeira.

sábado, 9 de março de 2013

No oftalmologista



        Examinou-me com cordial atenção aquele médico. Usou todos os aparelhos possíveis, com nítido apreço. Observava minuciosamente minhas pupilas dilatadas. O exame corria bem. De repente, porém, percebi naquele semblante uma transmutação. Nele descortinava-se alguma indignação, umas doses de curiosidade e outras de incerteza. O médico levantou-se, buscou em sua gaveta uma ferramenta e lançou seu olhar através da lente, novamente.  Minutos passados, certificou-se por fim de que não tinha a resposta para o enigma que diante dele se expunha. Resolveu, então, convocar um dos médicos que transitava pela sala. Voltou-se para ele, dizendo em tom instigado que o exame detectava uma luz branca no fundo dos meus olhos. E ele, a desconhecia. O amigo, mais experiente não em casos oftalmológicos, mas naqueles d'alma, respondeu-lhe confiante: é o brilho que guarda as retinas que ainda são meninas. Imergiu-me, assim, uma epifania. Encantei-me com aquelas palavras que soaram como poesia de Drummond. Eu, feliz por ser proprietária de uma íris que muito brilhava, pedi suplicante que o médico indicasse o remédio capaz de preservar tal luz. Ele, rindo-se de minha inocente prepotência, confessou-me que jamais prescreveria tal receita. Não porquê não quisesse, mas porquê não podia. Agradeci-lhe ainda assim, e, inconformada voltei-me para a saída. Antes que atravessasse a porta, presenteou-me com recomendações últimas: "não se esqueça de usar o colírio! não esqueça do amor! use principalmente o amor, antes e depois que o colírio acabar." Guardei suas nobres palavras. Refletindo em meu caminho de retorno à casa, dei-me conta de não tinha propriedade alguma. Vivia tão somente na tentativa de arrendar os amores que alugo há anos, em tantos olhares, bares, lugares...E que o faço só para não perder o brilho desta minha retina. Nem a poesia desta minha vida.