Festinha qualquer. Para esquecer a prova de um vestibular mal-sucedido. Nenhuma previsão no horóscopo, nenhum aviso cartomante. A lua fotografada pelas minhas retinas enebriadas. Ainda lembro. Eu, tão adolescente. Encontro ao acaso. Era certo que nosso time e apetite musical eram comuns. De resto, nada era certo. Nada é, agora sei. Dançávamos. Você pisoteava meus dedos, que aprenderam a ficar em alerta toda vez que você se aproximava e tinha alguma rádio sintonizada. Não aprendemos nenhum passo, né? Só o descompasso do amor mesmo. Nesse, meu coração é bailarino digno de espetáculo russo. Hoje você ligou. A voz represada na garganta era por causa das lágrimas. Mas seria irracional confessar que eram de saudades. E suas. Por isso, inventei qualquer bobagem. Afinal, tinha me despedido de você a quinze minutos, no máximo. Atravessei a rua e você seguiu em frente. Foi nessa hora em que avistei o medo do outro lado da calçada. Tentei seguir indiferente, carregando inútil a fatia de bolo e os brigadeiros. Mas o medo fez companhia até a casa. E entrou mesmo sem convites. Enquanto escovava os dentes, instalou-se no espelho. Encarava-me impiedoso. Era escarlate. Medo de que nossos caminhos não se cruzem outra vez. De esquecer como é dançar torto. De não ser mais a rockeira que entrava em êxtase ao som do Legião. Hoje vesti saia longa, por admiração à estética hippie. Amanhã termino o primeiro período na faculdade do tal do vestibular. Ganhei de presente uma bolsa. Cheia de papéis. Horários, grade curricular, compromissos, responsabilidades, documentos legais. Estou furiosa com os relógios, quero quebrar todos eles. Porque eu sei tudo sobre fórmulas físicas que envolvem o tempo, mas eu não sei como voltar na noite de 23 de junho. Aquela em que eu fui assaltada pela primeira vez. A única em que não pediram dinheiro, mas amor. E permitiram que eu também fosse assaltante.
ps: Vou te aconchegar no bolso e no coração, meu pequeno. Sempre.