Acendi o abajour. Delicados fragmentos de luz
formavam sombras bailarinas em meu quarto. Recuperava, com as notas do piano de
Alina, cada pedaço inexato daquela noite que nunca mais viveria. Hoje, quanto
vieste e fizeste de meu colo o porto para o pouso dançarino de teus dedos,
transportei-me. Descobri que o tempo, como aquele revelado pelo Borges que
acomodei sobre as pernas, era um oceano profuso. Eu, mergulhada em seu ponto
central, tentava imergir ao fundo. E a impiedosa realidade arrastava-me ao
centro, porque era o presente. E o presente é o único tempo que pertence ao
homem, lembra? Então, como não amar-te se me ofereces também os outros tempos? Aqueles
que à ninguém pertence, e que, mesmo assim, trazes-me, com a tua ficção mais
linda. Ah, malditos os relógios, os filósofos e os poetas! Atearam fogo ao meu sereno
peito. Enquanto cerravas os olhos, eu sabia: surgia em seu silêncio profundo uma cor sem
correspondência no universo. Eu entreabria, com uma força pequenina, as janelas
das retinas. E fitava no quarto sépia, pintores a inventar novas misturas de
tintas. Ambos atravessávamos a mesma pradaria do tempo. Cada um em seu
instante. E os dois fundidos num exato momento, perdidos e outros. Àquela
altura, a mais dura rocha certamente já teria se transformado em pequeninos grãos
difusos, a confundir-se com a areia dos litorais. Como quem investiga,
percorria seu rosto buscando reconstituir os fatos. Mas não havia fatos. Só
havia duas maçãs rubras e lisas analisadas pelos meus lábios quebradiços. Quis
confessar-te. E não soube. Ainda não sei: eu te amo durante toda metade de
segundo. A outra, minha alma reserva à melancolia – concerto de sinfonia
incerta. Nunca te amarei por completo, portanto. Só te amo a cada fractal de
instante. Por fim, te amo durante cada meio segundo de todos os segundos dos
sucessivos tempos.