Havia uma linha enterrada – mas não morta, apesar de torta – entre as palavras de Jorge Luis Borges. Imprensada entre as fantásticas letras do conto, parecia atropelada por uma carruagem de pesados e desconcertados sonhos mágicos. Grudava-se tão espantosamente a uma das páginas já ruídas pelo feroz e amargo tempo que parecia um desimportante e desgastado desenho nela fixado. Para nós, era um impulso a estranhas e íntimas descobertas. Analisávamos: irreparavelmente tensa e indomável, não se espreguiçava, não relaxava nem dormia nunca. Em suas subversivas extremidades, brotavam ondulações desconexas que revelavam generosa dose do caos que compunha o cerne de sua estrutura. Era única e ao mesmo tempo formada por muitas outras linhas que se entrelaçavam fielmente para compor sua complexa e enigmática trama. Estava ali seu indissociável paradoxo, sua composição plural que nos projetava mesclas de assombro e fascínio. Seu formato expressava, por um interessante acaso, uma originalidade inviolável, que invejávamos em silêncio sem confessar um ao outro. A beleza irremediável estava ainda mais acesa em nossos olhos entorpecidos que cuidadosamente a percorriam. Atormentavam-se imersos no delírio de quem descortina a sutileza oculta de uma das partes do infindo mosaico de pequenas coisas da vida. Decretamos pactualmente, sem que soubéssemos, a eternidade da linha, porque nós jamais a esqueceríamos. Ele a achava preta. Eu, uma espécie de azul celestial. Mas isso nunca importará, na verdade. Juntamos a ela algumas gotas de saliva, células mortas, cílios caídos e a invisível marca de nossas digitais. Guardamos fragmentos de nós mesmos, protegidos pelo desinteresse dos outros. Ninguém mais saberia daquela misteriosa linha. E muito menos da outra: a que nos unia. Sob escombros e páginas não lidas ficariam todos os rastros aleatórios em sinestesia. Fechamos o livro.
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