quinta-feira, 16 de maio de 2013

Amêndoas

        Eu era aficionada por amêndoas. Um dia, interessou-me uma mulher sentada debaixo de uma amendoeira. Gotículas de chuva mesclavam-se aos raios de um sol que despedia-se entre nuvens. A terra molhada começou a exalar um cheiro de tempo que se confundia com o perfume dela. Eu, como quem rouba pétalas de uma rosa até chegar em seu íntimo, desvendava mistérios daquela inusitada beleza. Suas sobrancelhas eram espessas, de fios bem trançados e negros que carregavam uma assombrosa seriedade. Sua boca, emoldurada por uma linha de irresistíveis traços, era composta por lábios carnudos que insistiam em fugir do contorno. As mãos, de tão miúdas e magricelas, lembravam galhos despidos de uma árvore outonal. Uma tela pontilhista aos poucos se formava em seus ombros de pequeninas sardas onde pousavam pétalas qualquer de uma flor marrom que fora violentada pelo vento. Havia, no entanto, um traço fatal. O exame minucioso de seus olhos despertara em mim um desejo impronunciável. Eles eram a mais deslumbrante amêndoa que já tinha visto. Eram vivos e marcados por vestígios de uma alma que desconhecia e já amava. Nunca mais comi amêndoas. Ninguém soube o porquê. Ninguém me viu morrer de fome daquela coisa que instigava e apetecia.

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