domingo, 23 de junho de 2013

partes

 Acendi o abajour. Delicados fragmentos de luz formavam sombras bailarinas em meu quarto. Recuperava, com as notas do piano de Alina, cada pedaço inexato daquela noite que nunca mais viveria. Hoje, quanto vieste e fizeste de meu colo o porto para o pouso dançarino de teus dedos, transportei-me. Descobri que o tempo, como aquele revelado pelo Borges que acomodei sobre as pernas, era um oceano profuso. Eu, mergulhada em seu ponto central, tentava imergir ao fundo. E a impiedosa realidade arrastava-me ao centro, porque era o presente. E o presente é o único tempo que pertence ao homem, lembra? Então, como não amar-te se me ofereces também os outros tempos? Aqueles que à ninguém pertence, e que, mesmo assim, trazes-me, com a tua ficção mais linda. Ah, malditos os relógios, os filósofos e os poetas! Atearam fogo ao meu sereno peito. Enquanto cerravas os olhos, eu sabia: surgia em seu silêncio profundo uma cor sem correspondência no universo. Eu entreabria, com uma força pequenina, as janelas das retinas. E fitava no quarto sépia, pintores a inventar novas misturas de tintas. Ambos atravessávamos a mesma pradaria do tempo. Cada um em seu instante. E os dois fundidos num exato momento, perdidos e outros. Àquela altura, a mais dura rocha certamente já teria se transformado em pequeninos grãos difusos, a confundir-se com a areia dos litorais. Como quem investiga, percorria seu rosto buscando reconstituir os fatos. Mas não havia fatos. Só havia duas maçãs rubras e lisas analisadas pelos meus lábios quebradiços. Quis confessar-te. E não soube. Ainda não sei: eu te amo durante toda metade de segundo. A outra, minha alma reserva à melancolia – concerto de sinfonia incerta. Nunca te amarei por completo, portanto. Só te amo a cada fractal de instante. Por fim, te amo durante cada meio segundo de todos os segundos dos sucessivos tempos.

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