domingo, 28 de julho de 2013

residências

Eu moro nas tardes em que tomamos sorvete nesta mesma calçada que hoje piso sem riso. Habito o barco que não roubamos para escapar do caos e nos amar ao mar, no cais. Minha casa é a estrela-cadente que não esperou meu pedido, nesta noite crepuscular, de-cadente. É assim comigo: resido nos resíduos. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Há duas uvas do fim

Semana passada, comprei um cacho de uvas na feira. Eram rosadas, quase vermelhas. Pareciam parte de um quadro pontilhista. Cheias de manchinhas, ovaladas. Admirei-as. Em seguida, lavei-as, coloquei-as na geladeira e...esqueci. Hoje, depois de ter esvaziado os armários, lembrei delas, solitárias na prateleira fria. Arranquei-as do cacho e as despojei em um potinho, acompanhando com generosas colheres de leite condensado. Eram doces por dentro, mas geladas demais. As cascas, mesmo finas, azedas. Comia-as banhadas no leite. Não estavam boas. Mas eram tão bonitas...Quando havia apenas duas no pote, descobri que partido-as, o fruto adocicado se mesclaria melhor ao leite condensado. E então lembrei: as melhores coisas da minha vida chegam, invariavelmente, atrasadas. Aproximadamente, há duas uvas do fim.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

percurso da noite vazia

fuma um cigarro
fica o pigarro
canta a cigarra

a lua adormece
o dia amanhece
ele esquece

Enquanto Heráclito piscou o olho

a crase é grave
a crise é aguda
gramática
ou política:
nada muda

a vida é breve
e a maré tá braba
eu to na margem
e não sei quase nada.

Relatório dos últimos acontecimentos e ligações

Deus está morto no mundo líquido. O mundo está torto. E, apesar de líquido, vai faltar água. Afinal, é o planeta terra. Mas vai faltar planta também, aí deu problema. Não é só pelos vinte centavos, não. É por tudo, oras. Então já se sabe: não deve ser por nada. Alô, alô, marciano?! Sabe quem esteve no poder? Feliciano. Droga! caiu à ligação. Vou tentar o José. E agora José? Já descobriu como é que é? Tum-tum-tum. Cristo redentor não é mais ponto turístico.  É logomarca, impresso na camisa, na garrafa, na mochila, vai acabar virando capa de revista. Iconoclasta da democracia, o primeiro governador negro da maior potência mundial viola os direitos humanos, paradoxal... Deu tudo errado: viver é cancerígeno, tá atestado. Alguém sabe dizer onde é que cancelo o contrato? Alô, alô, marciano? E a passagem só de ida pro teu plano como é que é? Ainda tá de pé?  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

não há menina

Ah, teu silêncio cítrico
sem laço

Essa afonia cínica
do teu passo

O negro e partido
caco

Meu deserto,
espinhas do teu cacto

Galáxia em pó
no corpo explodido

A cacofonia do
do teu substantivo

A lágrima
corre em despedida

Não há menina,
só? part/ida...


domingo, 14 de julho de 2013

23 de junho

    Festinha qualquer. Para esquecer a prova de um vestibular mal-sucedido. Nenhuma previsão no horóscopo, nenhum aviso cartomante. A lua fotografada pelas minhas retinas enebriadas. Ainda lembro. Eu, tão adolescente. Encontro ao acaso. Era certo que nosso time e apetite musical eram comuns. De resto, nada era certo. Nada é, agora sei. Dançávamos. Você pisoteava meus dedos, que aprenderam a ficar em alerta toda vez que você se aproximava e tinha alguma rádio sintonizada. Não aprendemos nenhum passo, né? Só o descompasso do amor mesmo. Nesse, meu coração é bailarino digno de espetáculo russo. Hoje você ligou. A voz represada na garganta era por causa das lágrimas. Mas seria irracional confessar que eram de saudades. E suas. Por isso, inventei qualquer bobagem. Afinal, tinha me despedido de você a quinze minutos, no máximo. Atravessei a rua e você seguiu em frente. Foi nessa hora em que avistei o medo do outro lado da calçada. Tentei seguir indiferente, carregando inútil a fatia de bolo e os brigadeiros. Mas o medo fez companhia até a casa. E entrou mesmo sem convites. Enquanto escovava os dentes, instalou-se no espelho. Encarava-me impiedoso. Era escarlate. Medo de que nossos caminhos não se cruzem outra vez. De esquecer como é dançar torto. De não ser mais a rockeira que entrava em êxtase ao som do Legião. Hoje vesti saia longa, por admiração à estética hippie. Amanhã termino o primeiro período na faculdade do tal do vestibular. Ganhei de presente uma bolsa. Cheia de papéis. Horários, grade curricular, compromissos, responsabilidades, documentos legais. Estou furiosa com os relógios, quero quebrar todos eles. Porque eu sei tudo sobre fórmulas físicas que envolvem o tempo, mas eu não sei como voltar na noite de 23 de junho. Aquela em que eu fui assaltada pela primeira vez. A única em que não pediram dinheiro, mas amor. E permitiram que eu também fosse assaltante.

ps: Vou te aconchegar no bolso e no coração, meu pequeno. Sempre.