Ontem à noite nosso amor recebeu um transplante. E foi de vida. Doadores: eu e você. A operação era de risco. Mas fizemos o principal: arriscamos. Ao invés de anestesia, sinestesia. Iniciamos com a transfusão de sangue. E, lentamente, ele voltava a pulsar. Seguimos com doses imprecisas de intensidade. Encontramos a medicação que precisava: pílulas que estimulam o desenvolvimento de asas. Depois, para fins recuperativos, deixamos que descansasse sob nossos peitos aflitos. Enquanto afundávamos em nossa própria criação. O amor, então, abria seus olhos atentos diante de nós. E, esparramava-se brincando entre as pernas e os lençóis. Era quente e almado esse novo amor. Cresceu desajeitado, tremendo minhas certezas e despenteando meu cabelo – parecia até uma espécie de furacão. Não sei se é, mas era algo em extinção. Inquietava-se. Devorava, roia e desejava a pele minha. Queria a última gota da minha saliva. E até a cor dos meus lábios desbotava de tanto beijo que o amor me dava.

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