Um dia desses o Zé morreu de vez
Mas ninguém soube quem ele foi
Será que o José de Drummond, em versão enxuta?
Seria o Ramalho, o do Caixão ou o Mané?
Caberia nele a personificação de quantos Zés?
Zé tinha pele empretecida
Cor de café-que-não-tomava
E por não tomar café, Zé não acordava
Zé morria sonhando, dia após dia
Sentado em qualquer esquina
Que também foi seu berço concreto
Não tinha espaço para o abstrato
Apoiava os ossos de papel que tinha
No asfalto fumegante, de pedra moída
Passou a morte olhando o mar
Que só mesmo ele conseguiu criar
Construiu infindo oceano na poça d´água suja
Pelo qual um dia se poria a navegar
Assim que o sol se fosse, parando de queimar
Mas Zé morreu antes, antes de seu veleiro chegar
Um dia desses, o Zé morreu de vez
No obituário registrou-se nome
Que nunca teve em morte: Zé Sonhador
Enfim, tinha nome e sobrenome
Virou gente, matou a fome.
Nota: Inspirado nas reflexões sobre morte, vida, miséria e dignidade presentes em "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.
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