domingo, 3 de fevereiro de 2013

Zé Sonhador


Um dia desses o Zé morreu de vez 
Mas ninguém soube quem ele foi 
Será que o José de Drummond, em versão enxuta? 
Seria o Ramalho, o do Caixão ou o Mané? 
Caberia nele a personificação de quantos Zés? 
Zé tinha pele empretecida 
Cor de café-que-não-tomava 
E por não tomar café, Zé não acordava 
Zé morria sonhando, dia após dia 
Sentado em qualquer esquina 
Que também foi seu berço concreto 
Não tinha espaço para o abstrato 
Apoiava os ossos de papel que tinha 
No asfalto fumegante, de pedra moída 
Passou a morte olhando o mar 
Que só mesmo ele conseguiu criar 
Construiu infindo oceano na poça d´água suja 
Pelo qual um dia se poria a navegar 
Assim que o sol se fosse, parando de queimar 
Mas Zé morreu antes, antes de seu veleiro chegar 
Um dia desses, o Zé morreu de vez 
No obituário registrou-se nome 
Que nunca teve em morte: Zé Sonhador 
Enfim, tinha nome e sobrenome 
Virou gente, matou a fome.

Nota: Inspirado nas reflexões sobre morte, vida, miséria e dignidade presentes em "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto. 

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