Às vezes brinco com você, recordando a infância. Entre as cenas que vivíamos. Certas noites, divido minhas novas descobertas e desnudo minhas incertezas. Jogamos conversa fora, debaixo das estrelas ou das nuvens sisudas. Nunca fomos demasiadamente plurais. Embora abrigássemos com caos e alegria nossos vícios e virtudes. Aprendi com você sobre ser ímpar. Sempre te admirei, por esse e tantos outros motivos. Enquanto todos dormiam para sonhar, ficávamos acordadas para fazer isso. Nosso lar: a varanda fria na qual ecoavam ruídos só nossos. Era a catarse habitual. Depois de um tempo, confirmei a certeza que guardava: nem todos poderiam me ouvir. Sou silêncio ininterrupto para muitos...E, você, sempre acessou minhas melodias e melancolias.
Sempre soube que nenhum abraço substituiria o seu. Ainda assim, consciente do insucesso, te procurei em outras esquinas que não aquelas nas quais íamos. Mas isso nunca importou. Nós sabemos que não existem reservas, e não estão esperando no banco. Somos titulares. Impagáveis, assim como nossos tempos. Somos aquelas cujo crime não compensa. Somos catarse em braile. Nossa interpretação concede-se apenas para os que conseguem enxergar mesmo quando dispensam os olhos como instrumento.
Sobre o tempo..."és um dos deuses mais lindos." Seria mesmo capaz de naufragar nossos sorrisos? Endurecer as tintas das latas que abrimos? Eu não lhe concederia tanto poder. Talvez ele saiba pausar cenas. Mas o controle ainda está -- e sempre estará em nossas mãos. Nada vai me levar de nós. Eu conseguiria, se quisesse, listar inúmeros motivos para isso. Porém, não seria necessário. Porquê eu sei o quanto há de você em mim. A grande parte depositada aqui, nesses meus sonhos indomáveis.
Querida, não há espera na janela. E não vou aguardar até que você se torne estrela para eu te ver outra vez. Eu te busco com frequência. E quando te pego, trago-me também. E, quando encontro a nós...estamos invariavelmente cúmplices, irmãs, felizes e perdidas. Entre tantos caminhos, houve partidas e apertos. Nunca me encontrei. Fico sempre com a sobra: minha tentativa. Mas sei também que nunca te perdi. E, se for preciso. Eu pinto estrelas e colo no céu. Só pra ver nossos sorrisos brilharem outra vez.
Parafraseando Mário Quintana:
"Eles passarão...
você passarinho."

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