Era diferente. Devia ter a pele
doce. Se não a tinha, pelo menos seu nobre coração era. Se tivesse que pintá-lo,
usaria tinta vermelha, sua cor favorita. E, não dispensaria colheres de açúcar
pra cristalizar o desenho, assim, abrigaria um toque de realidade. Nos seus
olhos, tons que me transportavam até as memórias de infância. Certa vez,
conversávamos casualmente, sentadas no banco. Falávamos sobre lugares para
conhecer, listamos: Espanha, Paris, Londres, Canadá e uma infinidade de
mesmices. Ela, depois de muito tempo de palavras enxutas, revelou-nos o destino
que desejava: o céu. Nem carro, ou mesmo navio e muito menos avião. Suas asas
seriam um grande balão. Foi uma das coisas mais lindas que já ouvi. Admirei-a
em silêncio e chorei. Ela sabia, embora não acreditasse, tirar seus pés do chão.
Queria ficar pertinho das paredes azuis que aprendemos a contemplar de longe. Iria
descobrir e trazer em sua bagagem a resposta para o questionamento que desde
pequena fiz à minha mãe: se as nuvens eram mesmo de algodão. Era tão simples
seu desejo e era também peculiarmente seu. Fazia dela um ser bem maior. Tenho
certeza que conhecerá o céu, porque é provavelmente um anjo em metamorfose. Então, vou fazer dois pedidos: pra você trazer um pedacinho de nuvem pra eu guardar em um pote e pintar o arco-íris de sete cores mais fortes.
Texto dedicado à minha querida amiga, Samara Simão.

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