sábado, 9 de março de 2013

No oftalmologista



        Examinou-me com cordial atenção aquele médico. Usou todos os aparelhos possíveis, com nítido apreço. Observava minuciosamente minhas pupilas dilatadas. O exame corria bem. De repente, porém, percebi naquele semblante uma transmutação. Nele descortinava-se alguma indignação, umas doses de curiosidade e outras de incerteza. O médico levantou-se, buscou em sua gaveta uma ferramenta e lançou seu olhar através da lente, novamente.  Minutos passados, certificou-se por fim de que não tinha a resposta para o enigma que diante dele se expunha. Resolveu, então, convocar um dos médicos que transitava pela sala. Voltou-se para ele, dizendo em tom instigado que o exame detectava uma luz branca no fundo dos meus olhos. E ele, a desconhecia. O amigo, mais experiente não em casos oftalmológicos, mas naqueles d'alma, respondeu-lhe confiante: é o brilho que guarda as retinas que ainda são meninas. Imergiu-me, assim, uma epifania. Encantei-me com aquelas palavras que soaram como poesia de Drummond. Eu, feliz por ser proprietária de uma íris que muito brilhava, pedi suplicante que o médico indicasse o remédio capaz de preservar tal luz. Ele, rindo-se de minha inocente prepotência, confessou-me que jamais prescreveria tal receita. Não porquê não quisesse, mas porquê não podia. Agradeci-lhe ainda assim, e, inconformada voltei-me para a saída. Antes que atravessasse a porta, presenteou-me com recomendações últimas: "não se esqueça de usar o colírio! não esqueça do amor! use principalmente o amor, antes e depois que o colírio acabar." Guardei suas nobres palavras. Refletindo em meu caminho de retorno à casa, dei-me conta de não tinha propriedade alguma. Vivia tão somente na tentativa de arrendar os amores que alugo há anos, em tantos olhares, bares, lugares...E que o faço só para não perder o brilho desta minha retina. Nem a poesia desta minha vida.   

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