domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sentir




Pela manhã, café bem quente. De adoçante, gota nenhuma. De lágrimas de qualquer sentimento, gotas inúmeras. 

Para usufruir as cores e sabores da vida é preciso sentir. Qualquer coisa. 

Almas-passarinho



Almas que amam
Não são almas só
São almas-passarinho
Voam no dia, asas da liberdade
Voltam na noite, amantes pro ninho.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Flores das chaminés

Autoria ideológica de Thayane Guimarães.


Quando é que nós, homens de guerra
Reféns de um mundo sem amor
Faremos brotar das chaminés dos nossos carros
Ao invés de fumaça,
flor?


Tuas retinas infindas




Entre tantos livros meus nessa estante
Aquele que é teu
É o de história mais fascinante
Aquele que li repetidas vezes
Aquele que não pulei página alguma
Aquele que interpretei por meses
Aquele que sem ele sou eu coisa nenhuma
Aquele que me faz sorrir ao decifrar
Aquele que faz lágrima minha derramar
Aquele que tem as palavras nunca escritas de tão lindas
Aquele que dei título assim: Tuas retinas infindas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Transplante



       Ontem à noite nosso amor recebeu um transplante. E foi de vida. Doadores: eu e você. A operação era de risco. Mas fizemos o principal: arriscamos. Ao invés de anestesia, sinestesia. Iniciamos com a transfusão de sangue. E, lentamente, ele voltava a pulsar. Seguimos com doses imprecisas de intensidade. Encontramos a medicação que precisava: pílulas que estimulam o desenvolvimento de asas. Depois, para fins recuperativos, deixamos que descansasse sob nossos peitos aflitos. Enquanto afundávamos em nossa própria criação. O amor, então, abria seus olhos atentos diante de nós. E, esparramava-se brincando entre as pernas e os lençóis. Era quente e almado esse novo amor. Cresceu desajeitado, tremendo minhas certezas e despenteando meu cabelo – parecia até uma espécie de furacão. Não sei se é, mas era algo em extinção. Inquietava-se. Devorava, roia e desejava a pele minha. Queria a última gota da minha saliva. E até a cor dos meus lábios desbotava de tanto beijo que o amor me dava.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ninguém no mundo


Ninguém no mundo invadiu meus olhos
E buscou no fundo as dores e delícias
Ninguém no mundo aceitou-me sem malícias

Ninguém no mundo fez aquele convite pra dança
E depois resgatou o sorriso empoirado no baú de uma criança
Ninguém antes no mundo trouxe esse tom da esperança

Ninguém no mundo ensinou-me essa dança
A dança da nossa vida e o com(passo) do balé
Ninguém no mundo mostrou antes como é – que o amor se faz

Ninguém no mundo foi tão amante e tão irmão
E ninguém antes soube alar meu coração
E também ninguém errou tão bem a dose da paixão

Ninguém no mundo aceitou meu amor vagabundo
Que é também tão simples, tão barato
E que ainda anda perdido no labirinto do abstrato

Ninguém no mundo derramou a minha alma
Colecionou minhas cartas, estrelas e flores
Ninguém guardou tão bem as palavras-com-amore

Ninguém no mundo entendeu meu punk rock
E ainda minha estranha e im(pulsiva) poesia
Ninguém antes decorou a minha desconexa coreografia

Ninguém no mundo será o que você é
Ninguém no mundo tem a cor dos seus olhos castanhos
Ninguém no mundo vai te guardar como eu vou

Ninguém no mundo fez de mim amor como agora sou
Você é pra mim como ninguém no mundo
Não há sinônimo nem antônimo...há você e suas coisas – que amo.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Zé Sonhador


Um dia desses o Zé morreu de vez 
Mas ninguém soube quem ele foi 
Será que o José de Drummond, em versão enxuta? 
Seria o Ramalho, o do Caixão ou o Mané? 
Caberia nele a personificação de quantos Zés? 
Zé tinha pele empretecida 
Cor de café-que-não-tomava 
E por não tomar café, Zé não acordava 
Zé morria sonhando, dia após dia 
Sentado em qualquer esquina 
Que também foi seu berço concreto 
Não tinha espaço para o abstrato 
Apoiava os ossos de papel que tinha 
No asfalto fumegante, de pedra moída 
Passou a morte olhando o mar 
Que só mesmo ele conseguiu criar 
Construiu infindo oceano na poça d´água suja 
Pelo qual um dia se poria a navegar 
Assim que o sol se fosse, parando de queimar 
Mas Zé morreu antes, antes de seu veleiro chegar 
Um dia desses, o Zé morreu de vez 
No obituário registrou-se nome 
Que nunca teve em morte: Zé Sonhador 
Enfim, tinha nome e sobrenome 
Virou gente, matou a fome.

Nota: Inspirado nas reflexões sobre morte, vida, miséria e dignidade presentes em "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.