quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cenários

Part/ida

O sol
Sai
Do céu

Gotas de caos
Caem
No cais

Um café cinza
A nuvem negra,
Tristeza.

Chegada

As nuvens cinzas
Saem
Do céu

A alma 
Se acalma 
No pote de mel

Café carmesim
Sol que irradia,
Alegria.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

domingo, 23 de junho de 2013

partes

 Acendi o abajour. Delicados fragmentos de luz formavam sombras bailarinas em meu quarto. Recuperava, com as notas do piano de Alina, cada pedaço inexato daquela noite que nunca mais viveria. Hoje, quanto vieste e fizeste de meu colo o porto para o pouso dançarino de teus dedos, transportei-me. Descobri que o tempo, como aquele revelado pelo Borges que acomodei sobre as pernas, era um oceano profuso. Eu, mergulhada em seu ponto central, tentava imergir ao fundo. E a impiedosa realidade arrastava-me ao centro, porque era o presente. E o presente é o único tempo que pertence ao homem, lembra? Então, como não amar-te se me ofereces também os outros tempos? Aqueles que à ninguém pertence, e que, mesmo assim, trazes-me, com a tua ficção mais linda. Ah, malditos os relógios, os filósofos e os poetas! Atearam fogo ao meu sereno peito. Enquanto cerravas os olhos, eu sabia: surgia em seu silêncio profundo uma cor sem correspondência no universo. Eu entreabria, com uma força pequenina, as janelas das retinas. E fitava no quarto sépia, pintores a inventar novas misturas de tintas. Ambos atravessávamos a mesma pradaria do tempo. Cada um em seu instante. E os dois fundidos num exato momento, perdidos e outros. Àquela altura, a mais dura rocha certamente já teria se transformado em pequeninos grãos difusos, a confundir-se com a areia dos litorais. Como quem investiga, percorria seu rosto buscando reconstituir os fatos. Mas não havia fatos. Só havia duas maçãs rubras e lisas analisadas pelos meus lábios quebradiços. Quis confessar-te. E não soube. Ainda não sei: eu te amo durante toda metade de segundo. A outra, minha alma reserva à melancolia – concerto de sinfonia incerta. Nunca te amarei por completo, portanto. Só te amo a cada fractal de instante. Por fim, te amo durante cada meio segundo de todos os segundos dos sucessivos tempos.

terça-feira, 28 de maio de 2013



Como quem alinha vestígios para reconhecer uma estrada que percorrerá em retorno, marcou-me a espádua com o carimbo dos lábios. Aguardo teu retorno. Mas saiba: as bússolas naufragaram, meu bem.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

pausas

         O tempo correu. Barco naufragado, garrafas quebradas, queijo mofado na geladeira. Era de se esperar. O velho Heráclito, que renova-se todos os dias dentro de nós, nunca falha. Antes, a tristeza e a alegria eram tão...polares! Agora, pó pelos ares. Fragmentos triturados de uma mesma dimensão -- a vida. Hoje, oscilam com tanta maestria. E nenhum maniqueísmo irrompe mais. Se a alegria entra em cena, o cenário é a tristeza. Se a tristeza é protagonista, seu diálogo é com a alegria. Eis aqui a mais poética alteridade. Sobre o caos dos últimos dias? Tem revirado cartas, certezas, sonhos, fotografias, a alma. Las noches? Já não compactuam com o sono, tornaram-se amantes do delírio, de outras línguas [todas tuas. Acordo: sete textos empilhados sobre a mesa, olheiras, um prazo opressor para a leitura. Xícara de café, banho frio: indícios de realidade. Nenhum desejo de percorrer universos que não passem por teus olhos. Segredo?  T e u  a n [s e i o]. Crítica, gramática, linguística, teoria, cultura, você. Sua dança, voz, perfume, lábios, doce, castanho. Lá fora as buzinas, a tampa das panelas, o tamborilar das moedas. Eu entrando na sua casa. O barulho da chave, da maçaneta, a porta se fechando. O mundo atrás de nós. Nós, o silêncio ininterrupto. A decadência de tudo. A tua cadência. Uma pausa no tempo. Um pouso em ti. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Amêndoas

        Eu era aficionada por amêndoas. Um dia, interessou-me uma mulher sentada debaixo de uma amendoeira. Gotículas de chuva mesclavam-se aos raios de um sol que despedia-se entre nuvens. A terra molhada começou a exalar um cheiro de tempo que se confundia com o perfume dela. Eu, como quem rouba pétalas de uma rosa até chegar em seu íntimo, desvendava mistérios daquela inusitada beleza. Suas sobrancelhas eram espessas, de fios bem trançados e negros que carregavam uma assombrosa seriedade. Sua boca, emoldurada por uma linha de irresistíveis traços, era composta por lábios carnudos que insistiam em fugir do contorno. As mãos, de tão miúdas e magricelas, lembravam galhos despidos de uma árvore outonal. Uma tela pontilhista aos poucos se formava em seus ombros de pequeninas sardas onde pousavam pétalas qualquer de uma flor marrom que fora violentada pelo vento. Havia, no entanto, um traço fatal. O exame minucioso de seus olhos despertara em mim um desejo impronunciável. Eles eram a mais deslumbrante amêndoa que já tinha visto. Eram vivos e marcados por vestígios de uma alma que desconhecia e já amava. Nunca mais comi amêndoas. Ninguém soube o porquê. Ninguém me viu morrer de fome daquela coisa que instigava e apetecia.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A linha

        Havia uma linha enterrada – mas não morta, apesar de torta – entre as palavras de Jorge Luis Borges. Imprensada entre as fantásticas letras do conto, parecia atropelada por uma carruagem de pesados e desconcertados sonhos mágicos. Grudava-se tão espantosamente a uma das páginas já ruídas pelo feroz e amargo tempo que parecia um desimportante e desgastado desenho nela fixado. Para nós, era um impulso a estranhas e íntimas descobertas. Analisávamos: irreparavelmente tensa e indomável, não se espreguiçava, não relaxava nem dormia nunca. Em suas subversivas extremidades, brotavam ondulações desconexas que revelavam generosa dose do caos que compunha o cerne de sua estrutura. Era única e ao mesmo tempo formada por muitas outras linhas que se entrelaçavam fielmente para compor sua complexa e enigmática trama. Estava ali seu indissociável paradoxo, sua composição plural que nos projetava mesclas de assombro e fascínio. Seu formato expressava, por um interessante acaso, uma originalidade inviolável, que invejávamos em silêncio sem confessar um ao outro. A beleza irremediável estava ainda mais acesa em nossos olhos entorpecidos que cuidadosamente a percorriam. Atormentavam-se imersos no delírio de quem descortina a sutileza oculta de uma das partes do infindo mosaico de pequenas coisas da vida. Decretamos pactualmente, sem que soubéssemos, a eternidade da linha, porque nós jamais a esqueceríamos. Ele a achava preta. Eu, uma espécie de azul celestial. Mas isso nunca importará, na verdade. Juntamos a ela algumas gotas de saliva, células mortas, cílios caídos e a invisível marca de nossas digitais. Guardamos fragmentos de nós mesmos, protegidos pelo desinteresse dos outros. Ninguém mais saberia daquela misteriosa linha. E muito menos da outra: a que nos unia. Sob escombros e páginas não lidas ficariam todos os rastros aleatórios em sinestesia. Fechamos o livro.