terça-feira, 28 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
pausas
O tempo correu. Barco naufragado, garrafas quebradas, queijo mofado na geladeira. Era de se esperar. O velho Heráclito, que renova-se todos os dias dentro de nós, nunca falha. Antes, a tristeza e a alegria eram tão...polares! Agora, pó pelos ares. Fragmentos triturados de uma mesma dimensão -- a vida. Hoje, oscilam com tanta maestria. E nenhum maniqueísmo irrompe mais. Se a alegria entra em cena, o cenário é a tristeza. Se a tristeza é protagonista, seu diálogo é com a alegria. Eis aqui a mais poética alteridade. Sobre o caos dos últimos dias? Tem revirado cartas, certezas, sonhos, fotografias, a alma. Las noches? Já não compactuam com o sono, tornaram-se amantes do delírio, de outras línguas [todas tuas. Acordo: sete textos empilhados sobre a mesa, olheiras, um prazo opressor para a leitura. Xícara de café, banho frio: indícios de realidade. Nenhum desejo de percorrer universos que não passem por teus olhos. Segredo? T e u a n [s e i o]. Crítica, gramática, linguística, teoria, cultura, você. Sua dança, voz, perfume, lábios, doce, castanho. Lá fora as buzinas, a tampa das panelas, o tamborilar das moedas. Eu entrando na sua casa. O barulho da chave, da maçaneta, a porta se fechando. O mundo atrás de nós. Nós, o silêncio ininterrupto. A decadência de tudo. A tua cadência. Uma pausa no tempo. Um pouso em ti.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Amêndoas
Eu era aficionada por amêndoas. Um dia, interessou-me uma mulher sentada debaixo de uma amendoeira. Gotículas de chuva mesclavam-se aos raios de um sol que despedia-se entre nuvens. A terra molhada começou a exalar um cheiro de tempo que se confundia com o perfume dela. Eu, como quem rouba pétalas de uma rosa até chegar em seu íntimo, desvendava mistérios daquela inusitada beleza. Suas sobrancelhas eram espessas, de fios bem trançados e negros que carregavam uma assombrosa seriedade. Sua boca, emoldurada por uma linha de irresistíveis traços, era composta por lábios carnudos que insistiam em fugir do contorno. As mãos, de tão miúdas e magricelas, lembravam galhos despidos de uma árvore outonal. Uma tela pontilhista aos poucos se formava em seus ombros de pequeninas sardas onde pousavam pétalas qualquer de uma flor marrom que fora violentada pelo vento. Havia, no entanto, um traço fatal. O exame minucioso de seus olhos despertara em mim um desejo impronunciável. Eles eram a mais deslumbrante amêndoa que já tinha visto. Eram vivos e marcados por vestígios de uma alma que desconhecia e já amava. Nunca mais comi amêndoas. Ninguém soube o porquê. Ninguém me viu morrer de fome daquela coisa que instigava e apetecia.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
A linha
Havia uma linha enterrada – mas não morta, apesar de torta – entre as palavras de Jorge Luis Borges. Imprensada entre as fantásticas letras do conto, parecia atropelada por uma carruagem de pesados e desconcertados sonhos mágicos. Grudava-se tão espantosamente a uma das páginas já ruídas pelo feroz e amargo tempo que parecia um desimportante e desgastado desenho nela fixado. Para nós, era um impulso a estranhas e íntimas descobertas. Analisávamos: irreparavelmente tensa e indomável, não se espreguiçava, não relaxava nem dormia nunca. Em suas subversivas extremidades, brotavam ondulações desconexas que revelavam generosa dose do caos que compunha o cerne de sua estrutura. Era única e ao mesmo tempo formada por muitas outras linhas que se entrelaçavam fielmente para compor sua complexa e enigmática trama. Estava ali seu indissociável paradoxo, sua composição plural que nos projetava mesclas de assombro e fascínio. Seu formato expressava, por um interessante acaso, uma originalidade inviolável, que invejávamos em silêncio sem confessar um ao outro. A beleza irremediável estava ainda mais acesa em nossos olhos entorpecidos que cuidadosamente a percorriam. Atormentavam-se imersos no delírio de quem descortina a sutileza oculta de uma das partes do infindo mosaico de pequenas coisas da vida. Decretamos pactualmente, sem que soubéssemos, a eternidade da linha, porque nós jamais a esqueceríamos. Ele a achava preta. Eu, uma espécie de azul celestial. Mas isso nunca importará, na verdade. Juntamos a ela algumas gotas de saliva, células mortas, cílios caídos e a invisível marca de nossas digitais. Guardamos fragmentos de nós mesmos, protegidos pelo desinteresse dos outros. Ninguém mais saberia daquela misteriosa linha. E muito menos da outra: a que nos unia. Sob escombros e páginas não lidas ficariam todos os rastros aleatórios em sinestesia. Fechamos o livro.
domingo, 28 de abril de 2013
A rosa e a formiga
Uma formiga caminhava sobre a pétala de rosa. Pobre criatura desesperada. Sentia-se imergir em um sedoso e vermelho mar tardio. Suas ínfimas patas oscilavam por entre as irregularidades da infinda pétala de extremidades já ressecadas e, por isso, febris e negras. A rosa, apesar de noturna, mergulhava em todas as cores do universo enquanto recebia os carinhos de patas tão desorientadas. Pétala e patas confundiam-se em um transe caótico. De repente, eu era a formiga efêmera e pânica. Você, a rosa inteira e farta. Depois, eu fui a rosa dionísica. Você, formiga miúda e cálida.
sábado, 30 de março de 2013
Dicionário brasileiro
li.ber.da.de de ex.pressão def. 1. Superstição presente no imaginário popular. 2. Direito comumente sufocado por bomba de gás lacrimogêneo ou spray de pimenta. sin. Utopia, quimera, sonho.
sexta-feira, 29 de março de 2013
(...)
Tenho em mim a certeza de que nunca será suficiente chegar a um ponto. Um ponto sempre incita novos sonhos – pontos – ou acorda aqueles adormecidos. Eu vivo insatisfeita. O que não quer dizer que eu nunca chegue a um ponto. É só que, por exemplo, três pontos já formam reticências. E cada reticências oferece um milhão de possibilidades. Eu desejo, em êxtase, agarrá-las todas. Mas não posso. Ah, são impiedosamente efêmeras as veredas dessa vida!
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