quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A menina que queria conhecer o céu


          

          Era diferente. Devia ter a pele doce. Se não a tinha, pelo menos seu nobre coração era. Se tivesse que pintá-lo, usaria tinta vermelha, sua cor favorita. E, não dispensaria colheres de açúcar pra cristalizar o desenho, assim, abrigaria um toque de realidade. Nos seus olhos, tons que me transportavam até as memórias de infância. Certa vez, conversávamos casualmente, sentadas no banco. Falávamos sobre lugares para conhecer, listamos: Espanha, Paris, Londres, Canadá e uma infinidade de mesmices. Ela, depois de muito tempo de palavras enxutas, revelou-nos o destino que desejava: o céu. Nem carro, ou mesmo navio e muito menos avião. Suas asas seriam um grande balão. Foi uma das coisas mais lindas que já ouvi. Admirei-a em silêncio e chorei. Ela sabia, embora não acreditasse, tirar seus pés do chão. Queria ficar pertinho das paredes azuis que aprendemos a contemplar de longe. Iria descobrir e trazer em sua bagagem a resposta para o questionamento que desde pequena fiz à minha mãe: se as nuvens eram mesmo de algodão. Era tão simples seu desejo e era também peculiarmente seu. Fazia dela um ser bem maior. Tenho certeza que conhecerá o céu, porque é provavelmente um anjo em metamorfose. Então, vou fazer dois pedidos: pra você trazer um pedacinho de nuvem pra eu guardar em um pote e pintar o arco-íris de sete cores mais fortes.

Texto dedicado à minha querida amiga, Samara Simão.

(Não) fazemos poesia sob encomenda



Certa vez, que ironia
Encomendaram-me poesia
Mas, coitado, mal sabia
Que ela é que me encomendaria
E, eu era pulsante refém de sua fantasia
Poesia, caro amigo, é como flor
Sutileza que homem nenhum cria
Nasce sozinha do amor
E só existe sob sinestesia.

Mariayne Cortes

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pássaros, estrelas e nós



Às vezes brinco com você, recordando a infância. Entre as cenas que vivíamos. Certas noites, divido minhas novas descobertas e desnudo minhas incertezas. Jogamos conversa fora, debaixo das estrelas ou das nuvens sisudas. Nunca fomos demasiadamente plurais. Embora abrigássemos com caos e alegria nossos vícios e virtudes. Aprendi com você sobre ser ímpar. Sempre te admirei, por esse e tantos outros motivos. Enquanto todos dormiam para sonhar, ficávamos acordadas para fazer isso. Nosso lar: a varanda fria na qual ecoavam ruídos só nossos. Era a catarse habitual. Depois de um tempo, confirmei a certeza que guardava: nem todos poderiam me ouvir. Sou silêncio ininterrupto para muitos...E, você, sempre acessou minhas melodias e melancolias. 

Sempre soube que nenhum abraço substituiria o seu. Ainda assim, consciente do insucesso, te procurei em outras esquinas que não aquelas nas quais íamos. Mas isso nunca importou. Nós sabemos que não existem reservas, e não estão esperando no banco. Somos titulares. Impagáveis, assim como nossos tempos. Somos aquelas cujo crime não compensa. Somos catarse em braile. Nossa interpretação concede-se apenas para os que conseguem enxergar mesmo quando dispensam os olhos como instrumento. 

Sobre o tempo..."és um dos deuses mais lindos." Seria mesmo capaz de naufragar nossos sorrisos? Endurecer as tintas das latas que abrimos? Eu não lhe concederia tanto poder. Talvez ele saiba pausar cenas. Mas o controle ainda está -- e sempre estará em nossas mãos. Nada vai me levar de nós. Eu conseguiria, se quisesse, listar inúmeros motivos para isso. Porém, não seria necessário. Porquê eu sei o quanto há de você em mim. A grande parte depositada aqui, nesses meus sonhos indomáveis. 

Querida, não há espera na janela. E não vou aguardar até que você se torne estrela para eu te ver outra vez. Eu te busco com frequência. E quando te pego, trago-me também. E, quando encontro a nós...estamos invariavelmente cúmplices, irmãs, felizes e perdidas. Entre tantos caminhos, houve partidas e apertos. Nunca me encontrei. Fico sempre com a sobra: minha tentativa. Mas sei também que nunca te perdi. E, se for preciso. Eu pinto estrelas e colo no céu. Só pra ver nossos sorrisos brilharem outra vez.

Parafraseando Mário Quintana:

"Eles passarão...
você passarinho."

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Último dia de inverno


Amanhecia do lado de fora. Era um novo dia. Para eles, entretanto, havia nada mais que uma velha certeza: a rotina era o penhasco para aquele amor com tendências suicidas. O silêncio invadia gradativamente o quarto, como costumava fazer toda manhã. Já entrava sem bater à porta, era íntimo. Parecia compor a mobília, as roupas, as bocas. Junto com ele, a luz da manhã percorria sem pressa seus corpos fatigados. Raios de um sol eminente e frio atravessavam as frechas da antiga janela de madeira. Era o último dia de inverno. 

Ao despertar, ela estranhou-se. Sentia-se protagonista de uma cena importante. Uma esperança tomou-a irremediavelmente, mas logo desfez-se como algodão-doce no céu da boca. Ele a fitava incessantemente. Interessava-se pela primeira vez em decifrar os mistérios agregados pelas suas curvas. Esboçaram um sorriso, que projetou-se em sépia. Ela questionava-se, com uma pitada de dor e alegria, se ele finalmente aprendera a amar-lhe. Depois de vinte anos de casamento – e compromissos e promessas e dívidas e dúvidas e empregos e pregos, será que havia um espaço na agenda dedicado a este nobre sentimento?

Ele a sentia. E, pela primeira vez, sentiu-se também. Reparou suas mãos: estavam mais enrugadas e gordas que antes, eram efeitos do tempo – que transitava impiedosamente. Apenas uma coisa permanecia como antes: há vinte anos a mesma aliança estava enterrada em seu dedo. E, há vinte anos não sabia o que era o amor. Ainda atormentado pela ideia de nunca ter provado o êxtase do melhor dos sentimentos, resolveu redimir-se pronunciando em tom desesperado as palavras que ela tanto sonhara ouvir: "Eu te amo." 

Em um colapso sinestésico, ela congelou-se. O silêncio era mais penetrante que antes. Dentro, sua alma derretia-se. Estava transbordando pelas suas retinas inefáveis. Molhava seu rosto imper(feito) de expressões febris. Então, inquietou-se: suas lágrimas não eram de alegria como pensou que seriam. Aquelas palavras re-acediam cicatrizes que ele bem soube provocar. Ela, sem voz, não conseguia retribuir-lhe com nenhum gesto afetuoso.  O que estava acontecendo? Desejou gritar de um jeito insano, não vestir a lucidez daquela vez. No entanto, ouviu-se para compreender-se. A verdade despia-se diante dela:  não o amava. O que amava era a dor de não ser amada.

Na manhã seguinte, arrumou as malas. Foi até a cozinha, pegou sua mais bela taça e preencheu-a com uma dose suficiente de coragem. Precisava ser fiel ao que sentia, como fora todos aqueles anos. Sentia-se livre de um jeito novo. A certeza de ambos se concretizava: aquele amor finalmente jogava-se do penhasco. Só que agora não haveria mais rotina. Dessa vez, era primavera. Era o recomeço. Não escreveu-lhe um bilhete. Deixou-lhe uma rosa. E, partiu. Não sabia mais sorrir em sépia. Seria feliz. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Liquidificador de ideias


Filosofia de uma desencontrada

É trágico e belo o efêmero espetáculo da vida. É única e indelével nossa aventura pelo mundo. Surpresa e monotonia. Dores e delícias. Lágrimas e alegrias. Não deixe que John Lennon seja the only one, rapaz – be a dreamer. Acredite em Raul: "não pense que a canção está perdida." Arrisque-se em direção ao desconhecido, tome coragem. Não dispense a genialidade de Clarice: “Perder-se também é caminho.” Há sempre uma epigênese em oceanos de incerteza. Não saia por aí contando verdades absolutas. Não esqueça que certo e errado são apenas pontos de vista. E, não há valor indubitável. Que você tenha força para perseguir seus sonhos. E, muita coragem para buscar os meios para realizá-los. Quando for escolher uma carreira, esqueça de escutar o senso comum. Mesmo  após tantas revoluções, as pessoas continuam confundindo dinheiro e status com felicidade. Pense em algo que genuinamente desperte seu interesse. Depois, certifique se você poderá fazê-lo com paixão. Então, siga em frente. Não há pesquisas nem dados científicos que comprovem, mas não se preocupe: a felicidade transcende a ordem da razão. Lembre-se que certas vezes seu coração baterá triste. Entenda que não existe maniqueísmo. Não somos bons ou maus, alegres ou tristes. Há, em cada indivíduo, o paradoxo da existência. A alma é suficientemente ampla para abrigar as antíteses. Nossa identidade é também resultante dos conflitos, tempestades, descontinuidades. “A única coisa permanente é a mudança” como bem afirmou Heráclito. É fascinante o transitar dos tempos. O decorrer da vida. O tempo pode até amolecer corações de pedra, sabia? Pois é. Ele possibilitará que pontes sejam erguidas. Então, faça isso ao invés de construir muros. Vivemos na Era da Informação. Tudo pode ser acessado, visualizado, invadido, m-o-d-i-f-i-c-a-d-o. Que a vida seja, então, uma sucessão de novidades e encantamentos. Que as aquarelas sejam mais vivas e que as telas fiquem menos brancas. A vida precisa de tons. Ainda que sejam os clássicos preto e branco. Não esqueça de dar play na cena, colocar os discos na vitrola, cantarolar desafinado, dividir uma casquinha de sorvete com alguém especial, lavar a alma com água da chuva, soltar passarinhos da gaiola, chorar de rir, jogar-se na cama, tirar os sapatos, desabotoar o terno, contar as estrelas, colecionar conchinhas da praia, doar sorrisos. Quando você conseguir achar graça nisso tudo, pode ter certeza que aprendeu a viver. E, então, delicie-se. Em tom de despedida, suplico finalmente: “Vida louca, vida. Vida breve, já que eu não posso te levar quero que você me leve.” 

Obs: Este texto foi intencionalmente redigido sem parágrafos. Em respeito ao livre transitar de minhas ideias e palavras.  

Por hora, deixarei as regras pro mundo real. Liberte-se também.




domingo, 20 de janeiro de 2013

Apresentação

De uma maneira geral, a palavra sinestesia é definida denotativamente como:


"s.f. Psicologia Associação espontânea entre sensações de natureza diferente mas que parecem estar intimamente ligadas; Retórica Associação de palavras ou expressões que combinam sensações distintas numa impressão única; cruzamento de sensações." 


O objetivo da criação deste blog é a expressão livre das reflexões sobre a vida: uma experiência sinestésica. Nada mais que palavras de uma andarilha de labirintos caóticos e deliciosamente harmônicos. Eternamente oscilante entre o apolíneo e dionisíaco. Amante do paradoxo. Inconstante, pulsante, metamorfose ambulante.  Assim como Clarice: "Enquanto eu tiver perguntas e não haver resposta, continuarei a escrever."

Aficcionada pela catarse, refém dos sentimentos, delírios e paixões: eis aqui a fatia favorita do meu eu. Apresento-a sem máscaras. Talvez as palavras sejam minha mais forte, sincera e intensa expressão. Portanto, são também minhas dores, cicatrizes, medos e gritos que alguma tempestade sufocou. A partir de agora, faço então meu empréstimo: lentes inéditas para o observação do mundo, verdadeiro museu de grandes novidades.

Gostaria de usar as palavras de Drummond em seu poema Lembrete

"Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida
mas a poesia (inexplicável) da vida." 

Muito bem-vindo(a), possível leitor(a). Qualquer hora eu volto. Ou, quem sabe, vou. 



Mariayne Cortes.