Amanhecia do lado de fora. Era um novo dia. Para eles, entretanto, havia nada mais que uma velha certeza: a rotina era o penhasco para aquele amor com tendências suicidas. O silêncio invadia gradativamente o quarto, como costumava fazer toda manhã. Já entrava sem bater à porta, era íntimo. Parecia compor a mobília, as roupas, as bocas. Junto com ele, a luz da manhã percorria sem pressa seus corpos fatigados. Raios de um sol eminente e frio atravessavam as frechas da antiga janela de madeira. Era o último dia de inverno.
Ao despertar, ela estranhou-se. Sentia-se protagonista de uma cena importante. Uma esperança tomou-a irremediavelmente, mas logo desfez-se como algodão-doce no céu da boca. Ele a fitava incessantemente. Interessava-se pela primeira vez em decifrar os mistérios agregados pelas suas curvas. Esboçaram um sorriso, que projetou-se em sépia. Ela questionava-se, com uma pitada de dor e alegria, se ele finalmente aprendera a amar-lhe. Depois de vinte anos de casamento – e compromissos e promessas e dívidas e dúvidas e empregos e pregos, será que havia um espaço na agenda dedicado a este nobre sentimento?
Ele a sentia. E, pela primeira vez, sentiu-se também. Reparou suas mãos: estavam mais enrugadas e gordas que antes, eram efeitos do tempo – que transitava impiedosamente. Apenas uma coisa permanecia como antes: há vinte anos a mesma aliança estava enterrada em seu dedo. E, há vinte anos não sabia o que era o amor. Ainda atormentado pela ideia de nunca ter provado o êxtase do melhor dos sentimentos, resolveu redimir-se pronunciando em tom desesperado as palavras que ela tanto sonhara ouvir: "Eu te amo."
Em um colapso sinestésico, ela congelou-se. O silêncio era mais penetrante que antes. Dentro, sua alma derretia-se. Estava transbordando pelas suas retinas inefáveis. Molhava seu rosto imper(feito) de expressões febris. Então, inquietou-se: suas lágrimas não eram de alegria como pensou que seriam. Aquelas palavras re-acediam cicatrizes que ele bem soube provocar. Ela, sem voz, não conseguia retribuir-lhe com nenhum gesto afetuoso. O que estava acontecendo? Desejou gritar de um jeito insano, não vestir a lucidez daquela vez. No entanto, ouviu-se para compreender-se. A verdade despia-se diante dela: não o amava. O que amava era a dor de não ser amada.
Na manhã seguinte, arrumou as malas. Foi até a cozinha, pegou sua mais bela taça e preencheu-a com uma dose suficiente de coragem. Precisava ser fiel ao que sentia, como fora todos aqueles anos. Sentia-se livre de um jeito novo. A certeza de ambos se concretizava: aquele amor finalmente jogava-se do penhasco. Só que agora não haveria mais rotina. Dessa vez, era primavera. Era o recomeço. Não escreveu-lhe um bilhete. Deixou-lhe uma rosa. E, partiu. Não sabia mais sorrir em sépia. Seria feliz.